Jornal do Commercio (RJ), 24 de janeiro de 1882
PROVÍNCIA DO CEARÁ
Eleição do 8º distrito
O Sr. Joaquim Bento é sempre o mesmo
homem. O mesmo selvagem de Mecejana, qualificativo
pelo qual é conhecido no Ceará. Tão fácil é ele em manejar a calunia como
pronto em fugir quando chamado as contas.
Em meu ultimo artigo provoquei-o a que
viesse dizer o que tem de comum os celebres
majores Gonçalos, de que falou, com meus ascendentes ou parentes em cujo
número os colocou; provoquei-o a que dissesse qual dos meus parentes já foi
processado por um arranhão sequer, e o Sr. Joaquim Bento diz-me hoje pelo
Jornal, que eu que quero é distraí-lo, e que ele não desce as cenas de pugilato
a que pretende arrastá-lo.
Mas, o Sr. Joaquim Bento está zombando do
público, que leu sua diatribe, sua desbragada descompostura, dirigida ao jornal
de 12, contra mim, contra minha família, contra os vivos e contra os mortos.
Tencionava Sr. Joaquim Bento, ir adiante,
mas, não vale a pena perder tempo e trabalho com um adversário de sua ordem.
Depois de ter provado que V. S. não
disse, em seu aludido artigo de 12, nada que não fosse ou uma calunia ou uma
inverdade, vou brindá-lo com a transcrição do que acaba de escrever, na
imprensa do Ceará, um de seus mais dedicados amigos e correligionários, um dos
liberais mais distintos e honrados de minha província; antes de fazê-lo permita
que lhe diga duas palavras a respeito da justificação que foi dada na Cachoeira
e da qual se ocupa a Gazeta da Noite,
cujo artigo V. S. fez transcrever.
Para depor nessa justificação foi citado
o Sr. José Pompeu Rodrigues Pinheiro, seu prestimoso amigo, seu agente.
Para não revelar a verdade, para não
comprometê-lo, Sr. Joaquim Bento, oficiou seu amigo dizendo que não podia
comparecer porque sua senhora estava de purga.
Nessa justificação o Sr. André Pinheiro
Maciel de Souza, que votou em V. S. e que por esse motivo é tão apreciado por
sua Gazeta, diz:
“Que quando o Dr. Joaquim Bento lhe
dissera que pretendia criar nulidades no colégio, adiantou que isso fazia
porque seu competidor tinha uma grande maioria.”
Mas, para que hei de estar a citar
palavras de terceiros, quando o próprio Sr. Joaquim Bento, na carta que se vai
ler, confessa sua derrota, quero dizer, sua
mais brilhante conquista, e revela os manejos que pretendia empregar para
repará-la?!
Leia a 1ª comissão de inquérito o que se
segue e pasme!
O público que fique conhecendo quem é o
Sr. Joaquim Bento.
Vingo-me apresentando-o tal qual ele é.
Álvaro Caminha Tavares da Silva.
Corte, 23 de janeiro de 1882.
MORADA
NOVA
Ao Sr. Dr. Joaquim Bento de Souza Andrade
O procedimento que acaba de ter o Sr.
Joaquim Bento, retirando traiçoeiramente da chapa do partido liberal, a última
hora, o nome de meu pai o Sr. Manoel Antônio Ferreira Nobre (de Morada Nova), obriga-me a vir em
público dar testemunho da perfídia que sofremos praticada por um homem a quem acabávamos
de defender com a lealdade de cavalheiros, superando todas as contrariedades
para lhe dar triunfo no pleito eleitoral de 10 do corrente.
Já se rumorejava que o Sr. Dr. Joaquim
Bento havia de praticar semelhante vilania, e isto se afirmava pelo fato de já
ter S. Ex. na 1ª eleição de deputados provinciais dado 15 votos ao Sr. Antônio
Arthur, de Jaguaribe-mirim, com o fim de captar-lhe a gratidão na 2ª eleição de
deputado geral.
S. Ex. que tudo empregara com o fim de
triunfar, não apelou mais para os seus correligionários daqui, senão de longe; como
que fugindo de vir a este lugar, onde o esperamos para conferenciarmos a
respeito de uma e outra eleição, procurando porém, nos arraiais inimigos alguém
que o pudesse coadjuvar, esquecendo a fidelidade que devia a nossa dedicação.
S. Ex. tinha algum plano reservado, e eu
já o havia pressentido ou sondado, tanto que o manifestara a seu cunhado
Joaquim Nunes, que mostrou-se de alguma forma ofendido procurando justificar a
intensão de S. Ex. e das más influencias do Limoeiro.
Passada porém, a eleição geral, e quando
já os nossos serviços não mais eram precisos, S. Ex. achou ocasião asada de nos
dar esta tremenda lição, julgando-se com direito exclusivo de decidir do
resultado da eleição provincial, coarctando a vontade dos eleitores liberais do
Limoeiro, para dar ganho de causa ao Sr. Antônio Valente, cuja candidatura se
tornou odiosa no Aracati, imposta, como foi, pela prepotência do Sr. Dr. Miguel
Castro, a quem S. Ex. teme contrariar, sujeitando-se antes a sacrificar a sua
própria honra e a de seus parentes.
Não há de ser com promessa de futura e sincera adesão que o Sr.
Joaquim Bento há de tirar de si a grande responsabilidade da infâmia que
praticou, e meu pai, no acaso da vida, agradece tanta veneração que S. Ex. lhe tributa para adoçar-lhe a mágoa da
traição, de que foi vitima.
Só agora é que o Sr. Dr. Joaquim Bento
nega os elementos de que dispunha meu pai para ser eleito em uma chapa de três
liberais que competem com quatro conservadores, e garantiu logo a derrota de
todos os três se não se sacrificasse uma candidatura.
Donde tirou S. Ex. tanta força de pensar
acertadamente?
Pois seria possível que não elegêssemos
um só deputado, quando era sabido que o Sr. padre Sezinando nenhum risco
correria, e que dos outros dois, um poderia triunfar sem grande dificuldade?
Para que S. Ex. trai a um para salvar a
outro!
De onde tirou S. Ex. este meio de curar o
mal com o próprio mal?
O Sr. Dr. Joaquim Bento bem sabia do meio
que devia empregar para sair-se bem dessa cruzada de provocações: - era, depois
de esgotados os últimos esforços, entregar com lealdade as urnas a sorte da
causa.
Eis o que S. Ex. não teve coragem de
fazer.
Demais, nenhum direito tinha S. Ex. de retirar
a votação de meu pai no Limoeiro, e de negar-lhe ali esse elemento de triunfo,
porque já era conhecida a vontade de muitos eleitores e já se achavam
comprometidos comigo e meu pai, além de S. Ex. os dois chefes Candido Malveira
e José Vidal, como se prova com o documento abaixo sob n. 1.
Poderá, porventura pela forma que
praticou S. Ex. no Limoeiro, e pelo que diz ter praticado por meio de
telegramas o seu ilustre chefe Dr.
Accioli, haver candidatura segura?
D’onde vem os elementos de que dispõe
Antônio Valente?
Responda-me, se é capaz, Sr. doutor.
Vou concluir dando publicidade a carta que
S. Ex. dirigiu a meu pai, depois de trai-lo (o que vai abaixo sob n. 2), a fim
de que o público passa avaliar e julgar o cinismo com que S. Ex. escarnece de
sua vitima.
Creio que S. Ex. ficará satisfeitíssimo
pelo modo digno porque quer salvar o
partido liberal na assembleia geral, e confio que S. Ex. se acomodará
perfeitamente bem com a glória de sua bonita ação tranquilizando-se da
inquietação em que ficou com os seus amigos do Limoeiro. – José Antônio
Ferreira Nobre.
Morada nova, 16 de dezembro de 1881.
Documento
n. 1
Ilmº. amigo e Sr. alferes José Antônio Ferreira Nobre. –
Limoeiro, 4 de dezembro de 1881.
Temos a vista seu prezado favor de 2 do
corrente, que vamos responder:
Os continuados transtornos que tem ocorrido
na presente quadra eleitoral, os compromissos pessoais de alguns eleitores e a
fraqueza de outros que facilmente se deixam embair por instantes perdidos de
candidatos de oposição, não nos tem permitido tomar uma resolução decisiva
acerca da eleição de deputados provinciais; entretanto continuamos a manter as
melhores disposições a respeito da candidatura de seu pai, e se bem que todos
nós devam merecer (como correligionários) igual apoio, prometemos-lhes que ele
aqui terá toda a maioria possível, se não tantos quantos V. Ex. exige, nunca
menos de 25 a 30, o que bem entendido já é um grande triunfo, porque não
esperamos reunir mais de 60 eleitores liberais entre os quais alguns
comprometidos individualmente; e portanto sairá ele com o duplo dos outros
aliás não menos recomendados.
Esperamos que compreenderá a nossa posição
e o nosso interesse que temos em satisfazê-lo.
Concluindo mantemos a mesma confiança em V.
S., em prol da candidatura de nosso caro amigo Dr. Joaquim Bento, cuja causa
exige dos amigos esforço sobre humano.
Aguardamos sua ultima resposta na convicção
de que ficará plenamente satisfeito.
Somos com toda estima de V. S. P. amigos
venerador e criados. – Candido Gonçalves Malveira – José Vidal Maciel.
Documento n. 2
Meu bom e prezado amigo Sr. Capitão Manoel Antônio.
É com mais plena confiança no seu
reconhecido patriotismo e dedicação ao partido liberal que vou fazer um apelo
aqueles grandes sentimentos que tanto nobilitam o seu caráter e o tornam
merecedor da veneração e alto apreço entre os seus amigos.
Há de saber que com a minha mais franca e
cordial adesão, os eleitores do Limoeiro estavam resolvidos a dar-lhe uma boa
votação sob a benéfica direção do nosso distinto e leal amigo Candido Malveira,
cuja sinceridade não preciso encarecer.
Inopinadamente, porém, surgiram
considerações tais e de tanto peso que obrigaram a este nosso estimadíssimo
amigo e aos outros que o acompanharam a
concordarem na retirada de seu nome para salvar a eleição provincial aos outros
dois candidatos liberais, sob pena de perdermos todos três, elevando os
adversários a maioria na assembleia provincial.
Sabe perfeitamente V. S. que ninguém mais do
que eu o aprecia; nem qualquer do outros dois candidatos mais nos merece, sendo
qualquer deles sacrificado se as circunstancias de todos três fossem as mesmas.
A verdade, porém, é que ambos seus dignos
companheiros de chapa dispõem de melhores elementos de triunfo, Antônio Valente
no Aracati, Russas, Jaguaribe-mirim, etc., vigário Sizinando em Cascavel,
Aracati (votação riparda), Russas e também ai.
Ainda mais: - fomos atraiçoados no Aracati e
Cascavel, na ultima eleição de um deputado (segundo escrutinio), ficando eu em
minoria de 26 votos nesses dois colégios, a pretexto de Antônio Valente, que é a espinha da garganta dos Pinheiros e Hipolito, autores da defecção.
Nestas condições recebemos telegramas do
nosso ilustríssimo chefe DR. Accioli, recomendando com toda força o Antônio
Valente, telegramas que foram também enviados para Jaguaribe-mirim, Frade e
Cachoeira, para dar-se uma resposta imediata aos Srs. Pinheiros que foram os
únicos de minha derrota.
Talvez, porém, se tenham eles enganado.
Cachoeira e Aracati estão completamente nulos, aquele colégio por cédulas
demais na urna, e este por ter-se votado sem titulo.
Em presença na necessidade de salvar dois
candidatos liberais e não perder todos três, resolveu-se hoje aqui, com
grandíssimo pesar de todos nós, o sacrifício de seu nome, esperando todos que,
a vista de tão ponderosos e gerais motivos, V. S. não levará a mal este
procedimento, ditado pela força maior das apertadas circunstancias em que
repentinamente se acharam os nossos amigos que lhe são extremamente,
cordialmente dedicados.
Foi um grande sacrifício para todos, Malveira,
José Vidal, Joaquim Nunes, Ignácio Mendes e para os demais amigos que nos
auxiliam.
Não preciso eu encarecer lhe a grandeza do
seu pesar, obrigado como fui a assumir, até certo ponto, a responsabilidade do
que se fez, e tendo em mira unicamente a salvação do partido liberal na
assembleia provincial.
Achando-me, infelizmente para mim, hoje
nesta vila, e testemunha ocular de uma situação gravíssima, fui impelido a
aconselhar a retirada do seu nome querido; esperando merecer-lhe uma desculpa
completa e sincera, bem na altura de seu patriotismo.
A minha posição aconselhava-me ainda
completa abstenção, como foi a que observei no primeiro escrutínio.
Não pude, porém, furtar-me de exibir o meu
humilde parecer que os amigos acolheram como uma fatal necessidade.
Já há de saber que o Álvaro Caminha teve
maioria de votos no 2º escrutínio.
Há, entretanto, dois colégios radicalmente
nulos, que me proponho invalidar para obter a cadeira que pela infidelidade dos
ripardos do Aracati me arrancada.
Tenho mais do que ninguém lutado com
obstáculos quase invencíveis para chegar a um resultado satisfatório, fazendo
sacrifícios enormes, muito superior as minhas forças e comprometendo a minha
saúde.
Irei, todavia para diante confiando no meu
direito e no apoio dos meus amigos tanto de nossa província como da corte (*).
Agora, porém, não se trata de mim, trata-se
do Senhor, a quem devemos a mais plena satisfação e a quem confiadamente os
seus amigos do Limoeiro se dirigem por meu intermédio, pedindo-lhe milhares de
desculpas e garantindo-lhe para o futuro a mais firme e solene adesão.
Espero a sua resposta para tranquilizar a
inquietação dos meus e seus amigos.
Sou, com particular estima, de V.S. amigo
dedicado e obrigado. – Joaquim Bento.
(*) Eis aqui o que trouxe a esta cidade o Sr.
Joaquim Bento; eis em que se fundam suas esperanças.










0 Response to "Jornal do Commercio (RJ), 24 de janeiro de 1882"
Postar um comentário