Jornal do Ceará, Fortaleza, 15 de abril de 1904
ELEIÇÃO DE SOURE
Continuando, como me comprometi, na demonstração
do ocorrido na eleição de Soure, me ocuparei hoje na parte referente ao
processo da eleição propriamente dito, com todas as suas peripécias.
Assoalhava o Sr. Correia, por toda
parte, por onde andava na sua cabala infrene que não consentiria fazer a eleição
em Soure, porque levaria todos a bala.
Supus que isso não passaria de um arreganho quixotesco no intuito de
privar que os nossos amigos comparecessem ao pleito o que sempre lhe aproveitou
alguma coisa, porque alguns amigos nossos de espirito menos rijo deixaram de
comparecer.
Não entraram, porém, nas minhas
cogitações os sentimentos de ferocidade
do Sr. Correia, a quem falta coragem; embora lhe sobre más intenções.
Não passou por minha fraca memoria, que
ele era sobrinho, afilhado e filho de criação de Antônio José Correia, por
alcunho Macaxeira de Viçosa, cuja sorte ninguém ignora, obrigando os
desventurados Juritis a praticarem atos que repugno mencionar.
No domingo, véspera do dia da eleição,
me dirigi pela manhã a Soure, a fim de combinar o plano da eleição,
arregimentando os amigos e dando as providencias necessárias para evitar
qualquer incidente desagradável.
Logo no caminho, ao chegar as pontes de
Soure, encontrei um portador do Sr. Correia, numa burra com uma carga de malas
de couro novas, com a marca Coronel A. J. C. feita com correia de couro curtido
e compreendi logo, que vinha a Capital buscar armas.
Não me enganei na minha suposição, porque é
sabido hoje que dito portador viera buscar 6 rifles emprestado por um
negociante alto e gordo da praça do Ferreira.
Constou-me também que o Sr. Correia
requisitara uma força policial, mas, que esta lhe havia sido negada.
Não é exata, porém, a segunda parte, porque
os praças foram em nº de 20.
No domingo, o meu rapaz encontrou ao cair da
noite os 20 praças, vestidos de camisa e calças com chapéu novo de palha de
carnaúba, armados a comblain, os quais passaram por trás do Matadouro
publico, tomaram o caminho da lagoa Pajussara, atrás do meu sitio e seguiram
pelo caminho do Gerimbaú, em direção a Estiva, tomando a estrada de Porangaba
para Soure, passando pelo Mulungú, entrando tarde da noite pela parte sudoeste
daquela vila e aquartelando-se na casa destinada pelo Sr. Correia.
Antes já havia o português Cordeiro de
Túcunduba, levado diversos rifles e chegado os capangas armados a rifle, enviados
pelo Sr. João Pereira da Fonseca, também daquela povoação.
Só o Sr. José Tito, segundo me consta, não
mandou capangas armados.
As 3 horas da tarde, constando ao Sr.
Correia, que o nosso amigo José Estevam havia alugado a casa de sua nora, viúva
de seu filho Raymundo Correia para fazer nela a eleição, mandou pô-la debaixo
de cerco por alguns cabras armados a rifles, sob as ordens do subdelegado
Antônio Gurgulho, individuo analfabeto, de má conduta e desprestigiado agente
de jogo de bichos, que exerce aquele cargo policial, porque o Sr. Correia não
teve talvez outro que possa ou queira exerce-lo.
Eram notificados todos os indivíduos de baixa
esfera social da vila e até os pobres velhos caranguejeiros que ali foram
vender seus gêneros, não escaparam a prestar, aterrorizados seus serviços em
obediência a essa ordem ilegal e criminosa, que daqui denuncio ao Sr. Dr.
Secretário da Justiça, na certeza de que esta denuncia terá a mesma sorte das
outras e das queixas dadas pelos adversários.
Dirigia-me tarde para casa de meu compadre
Nazário de Souza, homem laborioso, honesto e ordeiro, no simples intuito de
visita-lo e a família.
Ali encontrei o cidadão Herculano Gomes da
Silva, tio do meu ilustre amigo Dr. Pedro Rocha, homem também de conduta
ilibada.
O espetáculo belicoso que verifiquei no
caminho nos indignou e por isso exprobei na presença deles o ato do Sr.
Correia, que reputei de verdadeiro vandalismo.
Eles, amigos íntimos, leais e dedicados do
Sr. Correia, não puderam defende-lo, limitaram-se apenas a lamentar o fato,
dizendo-me então que desejavam que o pleito tivesse um desenlace pacifico.
Regressando para casa do meu distinto e
virtuoso vigário (Climério Chaves), onde estavam reunidos diversos amigos,
pedi-lhes que não trouxessem armas, nem capangas que não queria derramamento de
sangue dos meus irmãos.
Eis o histórico de todos os sucessos do dia
10 relativos do dia 11.










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