Jornal do Ceará, 16 de abril de 1904
ELEIÇÃO
NO SOURE
Passarei hoje a me ocupar dos fatos que se
deram no dia 11 do corrente, por ocasião da eleição.
Pela manhã a vila apresentava um aspecto
sombrio som o peso da mais terrível opressão.
Capangas armados de rifles percorriam as
ruas, recortando a vila em todas as direções, talvez a busca de algum
adversário do Sr. Correia, para alimentar a sua ferocidade ou a mandado
daquele, para atemorizar os nossos amigos.
Ao lado do subdelegado Antônio Gurgulho,
campeava impunimente o criminoso de morte Severo de tal, evadido da cadeia de
Maranguape e homiziado na fazenda do Sr. Correia de rifle ao ombro, plantando o
terror no seio das famílias, que, espavoridas fechavam as portas de suas casas,
procuravam escapar a sanha dos facinorosos, retirando para os subúrbios da vila.
Entretanto por todos os becos da vila
apareciam grupos de cavaleiros, nossos amigos, de feições simples amáveis e
prazenteiras, porque vinham exercer uma função sublime, depositar na urna seus
votos de cidadãos livres e de patriota intemerato, afim de salvar a terra do
seu berço das garras infernais da tirania em que geme.
Todos vinham saudar o virtuoso vigário e com
rebanho sequioso e faminto que, bailando procura o seu pastor para levá-lo as
fontes regelantes e aos campos relvosos, procuravam-no pedindo uma palavra de
consolo, uma frase de animação.
E o padre Climério Chaves, como verdadeiro ministro
do Senhor, sem querer envolver-se no movimento politico, aconselhava a todos
prudência e moderação, resignação e confiança na Divina Providência.
Ninguém pode imaginar a grande estima em que
é tido por todos os seus paroquianos aquele sacerdote.
Só o Sr. Correia, sempre rebelde aos ditames
da consciência, sempre contrário a todos os vigários que tem tido Soure e que
não se sujeitam aos seus caprichos, forma uma nota dissonante no concerto
harmonioso de respeito e acatamento, de estima e veneração, que todos tributam
aquele simpático, amável e caridoso sacerdote.
Às 8 horas foram abertas as portas da câmara,
mas, só as 11 horas do dia começou a chegar gente do Sr. Correia.
Ao toque da campainha, me dirigi acompanhado
dos amigos Henrique Chaves, Manoel Ferreira Filha, o intuito de apresentar meu
protesto, contra as irregularidades e ilegalidades que iam se dar bem como
contra a presença da capangada e força publica, disfarçada e armada de rifle e
a comblain próximas das seções eleitorais, que importavam a nulidade da
eleição.
A força e a capangada, ocupavam o centro do
triangulo, que formavam as três seções, donde podiam fazer fogo ao mesmo tempo,
para todas as seções.
Parecia que o Sr. Correia guardava a ocasião
em que nós, reunidos nos aproximássemos das seções, para mandar despachar balas
sobre nós; só assim se explica o fato de demorar os trabalhos eleitorais até 11
e meia.
Ao aproximar-me da câmara, ouvi grande ruído
e ao chegar mais perto, vi passar pela praça em direção a casa do Sr. Correia o
escrivão Auriculo, que saíra daquele edifício.
Ao penetrar na câmara o Sr. Correia já se
achava, no corpo da guarda com outros muitos e quando subira uns cinco degraus
da escada, ele interpela sobre o que eu ia fazer.
Respondi-lhe protestar sobre aquelas
iniquidades.
Respondeu-me que não aceitava protesto, nem
votavam ali os nossos amigos, nem fariam eleição em Soure e saiu insultando aos
companheiros que tinham ficado na porta.
Acompanhei-o dizendo que a eleição se faria,
e que eu não era caboclo amarelo de Soure para temê-lo.
Mandou-me a trampa, o que lhe devolvi dizendo
que era o que ele podia dar, porque era a educação que tinha.
Perguntou-me quem eu era.
Respondi-lhe que era um homem de educação, de
costumes puros e conduta ilibada, que me impunha a consideração da sociedade e
que ele era um bandido que já tinha ocupado a cadeira de réu por crime de
quebradeira fraudulenta, promovida pelo Sr. Martins de Borges, avô do Sr. Pedro
Borges a quem ele estava servindo e fora meu pai quem o defendera, o sustentara
na cadeia da capital, conseguira a transferência dele para a de Soure onde
devia estar em baixo e não em cima e finalmente obtivera o perdão resto da
pena.
Theophilo Bezerra Filho










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