Jornal do Ceará, 22 de outubro de 1907
LIMOEIRO,
9 DE OUTUBRO DE 1907
Ilmº
Sr. Redator
Como de toda parte ouço queixumes
reclamando do poder competente meios com que se possam atenuar os efeitos da
seca, vou também por vosso intermédio, com a presente, levar ao conhecimento da
distante Comissão de Açudes, o estado lastimoso deste povoado ora tão prospero
e hoje tão decadente, onde já se não ouve cantar a mimosa jandaia na verde
fronte das carnaubeiras
Eu que estremeço o Limoeiro como minha
segunda pátria, apesar de ser o último dos seus membros, não posso deixar de
chorar com seus filhos e pedir em favor desta Pátria, ou de construir meu
ninho, e onde vivo triste, porque é ver chorar a Pátria quando seus filhos não
podem com seu sangue dar-lhe a vida e calor, vida que se estingue, calor que se
esvair ao sopro impetuoso dos ventos enegrecendo de poeira o teto das brancas
casas onde estão a felicidade.
Já não vemos uma folha em suas matas e
os gados nutrem-se de uma forragem escassa e distante, vindos, de olhos fundos
e cortados de sede, em procura d’agua que só encontram em poucos pontos e em
reservatórios particulares ou consignados.
Jaguaribe – este gigante que em tempos
outros tantas e tantas vezes levou o seu leito e transbordou pelas várzeas,
acha-se completamente seco e em sua areias já não verdejam as cobiçadas
vazantes, já não existe um poço que meça uma braça de profundidade.
No curto espaço de tempo em que me é
dado o prazer de habitar estas hospitaleiras plagas, conheci ao redor do então
florescente Limoeiro cerca de 10 poços, e hoje somente o dos Paus distante 10
quilômetros da cidade, ainda contém a quarta parte de seu tamanho e sua
profundidade que era de cinco a dez braças hoje está reduzido a um lago.
“Bebedouro”, “Bode”, “Roçado”,
“Frasco”, “Damião” e outros tantos, estão aterrados e os criadores esgotaram
suas forças para não verem morrer de sede seus gados que fazem parte da escassa venda do Estado.
Lugares os mais apropriados possíveis
existem aqui, ali e além onde o Governo bem pode fazer grandes reservatórios
dando ao Município um valor incalculável. Já não falam de “Salinas” um dos
maiores lagos do Município, que com uma pequena barragem, seria suficiente para
represar água na distancia de uma légua, e bem que a este terá o Governo de
fazer indenização, outros há que tem indenização portanto mais baratos dariam
grandes açudes.
Existem no Município cinco pequenas
barragens do governo, duas das quais já de nada servem, pois em completo
abandono os sangradouros rasgaram demasiadamente e só no porão é que guardam
alguma água, que para isso não precisava da parede que fica a duzentos metros
mais ou menos.
O do Jatobá, que fica a cinco léguas, é
o único que se acha em estado de conservação, dando um resultado grandioso não
só a este lugar como aos municípios de Russas e Morada Nova.
Lá onde dois rochedos enormes servem de
base a parede, poderia o Governo fazer um colossal açude; mas que vemos? - uma
parede baixa e um sangradouro na altura de um metro, dando passagem a grande
quantidade de água.
Assim mesmo, quando ele sangra, vemos
umas enormes extensões de terreno coberto, resistindo a dois anos de seca!
As vazantes são bem regulares, não
falando do peixe que dá aos moradores uma vida toda farta.
É neste sentido que a vós, a quem
reconhecemos como extremo defensor dos oprimidos, peço em nome destes tão
dignos de melhor sorte uma palavra em prol de sua causa.
O comercio se atrofia, a indústria
pastoril morre e a lavoura pede o seu primitivo nome.
Chamai a atenção do distintíssimo Sr. Dr.
Piquet e dizei-lhe que nós, os limoeirenses também pedimos-lhe um olhar bem
digno para esta zona tão rica e tão descurada.
É com franqueza e subida consideração que
me subscrevo.
De V. Sª
amº e constante leitor.
Francisco Celestino da Costa.










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