Jornal Gazeta do Norte, 12 de agosto de 1881
Gazeta do Norte
Fortaleza 12 de
agosto de 1881
Em
regra geral temo-nos, muito de plano, abstido de criticar o procedimento de
certos juízes no exercício das novas funções que lhes conferiu a lei de 9 de
janeiro, sobre o processo de alistamento eleitoral.
Algumas
queixas alias fundadas recebemos e não reproduzimos, aconselhando aos nossos
amigos, vitimas de injustiças, a que usassem dos recursos legais; parecendo-nos
que todos os magistrados deviam estar bem possuídos e compenetrados do imenso
alcance que terá no futuro a boa ou má execução da reforma entregue
completamente a sua guarda. Era de crer e esperar que, no interesse da
nobilíssima classe que tão acusada tem sido de intervir indebitamente nos
destinos políticos deste país, todos a porfia se desvelassem no estreito
cumprimento dos altos deveres que lhes incumbe o novo regimento criado por
aquela auspiciosa lei, esmerando-se em dar-lhe a mais perfeita e satisfatória
aplicação. E fora de dúvida que da isenção de espirito partidário, (essa túnica
de Nessus); da integridade e independência dos magistrados depende
especialmente o feliz ou mau êxito da reforma que nos há de perde-lo de todo,
despenhando o espirito público nos azares de perigosas aspirações para o
desconhecido.
Tremenda,
pois, é a responsabilidade da magistratura.
O
juiz politico, diretor de cabala eleitoral em sua comarca, não pode exercer com
a conveniente imparcialidade o seu elevado magistério de julgar o processo
eleitoral.
Rebaixa
a própria autoridade, desserve a causa politica, tortura o direito, mente a
consciência para favorecer o amigo ou prejudicar o adversário.
Torna-se
muitas vezes o órgão da fraude, da cavilação, da escamotagem, quando devera ser
o arauto da verdade, superior aa obnóxias sugestões da causa que patrocina.
Depois
de repetidas informações e queixas de amigos nossos da comarca de Russas,
vitimas de má vontade de um juiz partidário, o Sr. Dr. Coelho Cintra, não nos é
licito guardar mais reservas sobre o modo como S. S. tem se havido no
alistamento d’aquela comarca, prestando-se aos manejos e cavilações de um
individuo que é repelido por todos os partidos, mas, serve de instrumento dócil
e apto a S. S. na empresa a que indebitamente favônia.
Já
os nossos leitores conhecem o que se deu em Russas no último dia do prazo para
os recursos. A mesma cilada efetuou-se em relação aos eleitores do Limoeiro com circunstancias mais agravantes e
comprometedoras para o juiz de direito.
De
uma carta ultimamente recebida consta o seguinte:
“No
penúltimo dia do prazo um nosso amigo seguiu para Russas a reclamar contra
certas inclusões ilegais, visto saber-se que o confidente do Cintra ia interpor
alguns recursos contra os liberais e conservadores do Limoeiro.”
“Ali
chegando foi dissuadido de fazê-lo, porque se lhe garantiu sob a palavra do
juiz de direito que este não consentiria na apresentação de recurso algum por
parte do seu amigo.”
Voltando
tranquilo soube com surpresa e indignação que no último dia se recorrera contra
a inclusão de 18 cidadãos alistados pelo juiz, conforme os avisos do ministro
do Império d e2 a 23 de fevereiro, sendo 12 liberais e 6 conservadores; suspendendo-se
assim as garantias de honra e dignidade de que falava o visconde de Uruguay.”
“A
passo que assim procedia o Dr. Cintra dava provimento ao recurso para ser
alistado um individuo de nome Joaquim de Aguiar, que não podendo sê-lo por
nenhum dos casos estabelecidos no Art. 4º socorreu-se de justificação testemunhal
fora de todas as condições legais!”
“Ainda
mais: - depois de mandar alistar um requerente, riscou o despacho para julgá-lo
sem efeito.”
“Consta
isso de um recurso que segue para a Relação.”
“Não
parou ai a desabusada parcialidade do trefego juiz.”
“Ao
carcereiro da cadeia do Limoeiro, pobre homem que vive quase de esmolas, deu
400$000 de renda: ao passo que ao presidente da câmara o Sr. José Vidal Maciel,
que acaba de dar a coleta 60 crias de sua fazenda, foi alistado com 200$000!”
“É
uma vingança bem mesquinha e ridícula do Sr. Dr. Cintra para satisfazer o seu alter ego.”
Reproduzindo
estas informações temos unicamente em mira, patentear atos que talvez já não
possam ser corrigidos pelo Tribunal Superior; mas, que certamente não devem
passar desapercebidos porque sejam devidamente julgados pela opinião pública.
Ao
que parece o Dr. Cintra pretende ser o grande eleitor na comarca de Russas.
Que
caso faz S. S. das recomendações do Governo?
Veremos
se todas as ciladas dão afinal o almejado quociente.










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