Revista da Academia Cearense

            Parte do texto: Da Fortaleza à cidade do Limoeiro

(Impressões de Viagem) por Dr. Henrique Théberge

A gentileza do Ilmº Sr. major Francisco Ferreira de Araújo Lima devo a hospedagem que, tanto de sua parte, como de sua Exmª. consorte e demais membros da ilustre família, foi sobremodo fidalga.

O Sr. major Araújo Lima mostrou-se um verdadeiro cavalheiro – distinto, já por seu caráter de temperaria; já por suas maneiras ilhanas e afáveis; já finalmente, pelo prestigio e estima que tem sabido granjear da população de Russas. Sua Srª. é, atualmente, o Chefe do Partido Republicano, naquela circunscrição municipal e muito prestimoso.

Minha estada naquela cidade podia ter sido por demais divertida e aprazível, visto como tinha coincidido com os festejos populares que estavam e que deveriam ter lugar por ocasião de ser ali inaugurada a linha telegráfica de propriedade do Estado.

Estes festejos foram completamente burlados pela circunstancia de se achar gravemente enfermo e mesmo agonizante um dos cidadãos mais importantes do lugar, o Sr. Capitão João Clímaco Velloso da Silva, então chefe daquele partido.

O pesar e a tristeza se desenhavam, mui claramente, nos semblantes de seus numerosos amigos e correligionários.

Desta forma – em vez encontrar festiva a velha cidade de Russas, foi ao contrario, encontra-la sob um aspecto sombrio e tristonho.

Uma circunstancia assaz digna de ser mencionada é a vocação dos naturais do lugar para as Artes e Ofícios.

A relação infra dá a conhecer aos leitores o número de artistas e oficiais – do ofício que naquela pequena cidade, exercem com gosto, constância e real proveito as suas profissões:

Carpinas 48, Marceneiros 5, Entalhadores 1, Ourives 42, Abridor 1, Músicos 31, Sapateiros 25, Pedreiros 19, Torneiros 15, Ferreiros 10, Alfaiates 9, Seleiros 9, Curtidores 6, Pintores 4, Funileiros 2, Imaginário 1.

Para tão lisonjeira circunstancia, digna dos maiores aplausos e louvores, fez dirigir a minha atenção o digno juiz de direito da comarca, o meu particular e distinto amigo Dr. Raimundo F. Ribeiro; assegurando-me, ao mesmo tempo, que todos trabalhavam e viviam mais ou menos satisfeitos em seu torrão natal, arrostando, resignada e corajosamente, a crise resultante da escassez e carestia dos gêneros alimentícios, que ora se estende simultaneamente a todos os pontos do estado.

Há ali uma pequena banda de musica marcial muito bem organizada e afinada. É ela dirigida com bastante maestria pelo inteligente e operoso artista Francisco Aprígio Riquel Nogueira.

Posso asseverar pelos trechos de boa música executados em minha presença, que poderia ela, sem receio de desagradar, exibir-se perante o publico desta Capital, apreciador das divinas harmonias de Mozard, Beethoven, Haydn e do inolvidável maestro brasileiro Carlos Gomes. E nisto não vai exageração alguma de minha parte.

Depois das convenientes despedidas aos bons amigos de Russas – Tomei a estrada que vai dar a cidade do Limoeiro.

Feito o trajeto de uns trinta quilômetros, através de terrenos inteiramente análogos aos que ficaram descritos, isto é: Várzeas ocupadas por extensos carnaubais, fiz a minha entrada nesta cidade que, sem duvida alguma é menor do que a de Russas; tendo antes apreciado, durante alguns instantes, a imponente paisagem da desembocadura do rio Banabuiú no leito do Jaguaribe.

Foi-me assaz agradável a impressão que me causou a cidade do Limoeiro, logo que de perto avistei. Seu aspecto era festivo; ao mesmo tempo que espocavam os fogos no ar, ouviram-se os sons harmoniosos de uma banda de música marcial, que anunciavam algum acontecimento grato a seus habitantes. O motivo de tal regozijo era o mesmo que ficou apontado precedentemente, quando me ocupei da cidade de Russas; era o fato da inauguração da linha telegráfica de propriedade do Estado. O povo manifestava-se francamente, no mais alto grau de contentamento e expansibilidade.

A recepção e hospedagem, minha e de mais alguns companheiros de viagem, coube ao distinto e ilustre Sr. Coronel José Nunes Guerreiro, legitima e benéfica influencia politica do município.

O tratamento foi o mais fidalgo possível. Falecem-me expressões para enumerar, de modo preciso, e tronar bem salientes as finezas e atenções que nos foram dispensadas pelo mesmo Sr. Cel. José Nunes; pelas Exmªs. esposa e gentil filha; finalmente, por seus numerosos parentes, amigos, etc. Em suma: foram tais os favores e as provas de consideração que nos dispensaram todos, que em nossos corações ficaram gravadas, em traços indeléveis: a doce recordação da nossa rápida passagem por aquele cidade e o sincero sentimento da nossa duradoura gratidão.

Quanto ao seu progresso material – além de um bom número de casas, de construção moderna, que lhe dão um ar alegre, possui a cidade do Limoeiro os seguintes edifícios:

Um templo de proporções regulares que serve de Matriz, no qual se executam trabalhos que tem por fim ampliar, e tornar mais elegante a respectiva Capela-Mór;

Um grande sobrado destinado as sessões do júri e da Câmara Municipal, no andar superior, servindo de cadeia o andar térreo. Sua edificação é boa e dispõe ele das acomodações precisas em estabelecimento desta ordem.

Não está definitivamente concluído; falta-lhe o revestimento exterior, em todas as suas 4 faces ou como dizem os nossos oficiais pedreiros: “está o edifício ainda em preto”.

Finalmente um Mercado bem construído de dimensões assaz regulares, oferecendo as comunidades necessários.

Não se acha ele, porém, terminado; demandando ainda de alguns pequenos serviços de arte para a sua completa conclusão.

Quanto as condições de existência e de atividade industrial dos habitantes do Limoeiro – são elas, pouco mais ou menos, as mesmas que expus relativamente a população de Russas.

Elevada aquela localidade a categoria de cidade, apenas há 2 anos,  pareceu-me dispor ela dos elementos indispensáveis a constituir, em futura não mui remoto, um ponto relativamente importante de população e comercio. Seus habitantes laboriosos e pertinazes no intuito de obterem, por todos os meios possíveis, o adiantamento material e moral de sua terra, poderão em breve tempo conseguir este desideratum, se fizerem promiscuamente convergir os seus esforços e energias em tal sentido.

A hospitaleira e jovial população desejo, pois, as mais lisonjeiras condições de progresso e de ventura.


                               Fortaleza 8 de setembro de 1898.

                                                                                              Henrique Théberge.

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