Limoeiro, 28 de janeiro de 1881

                                               DEFESA NECESSÁRIA

         Com a maior surpresa e admiração li no Cearense de 16 do corrente mês, que a redação daquele jornal por ocasião de noticiar a chegada do Sr. Custódio Ribeiro, o qualifica de – prestimoso chefe liberal do Limoeiro; e como sei que o partido liberal desta localidade não conferiu ao Sr. Custódio o titulo de chefe que lhe empresta o Cearense, direito que é exclusivamente reservado ao partido, que escolhe para seu diretor a pessoa em quem descobre serviço e predicados que lhe dão jus a tomar a iniciativa nos negócios políticos, consultando a vontade e legitimo interesse dos amigos e jamais a pretensão individual e egoísta, que muitas vezes não tem por se mais que os planos dessarroados de extermínio e estrangulação as verdadeiras influencias da localidade; venho em nome do partido liberal dar um grito de alerta e contrapor ao oficioso acerto do Cearense a verdade dos fatos, conforme se acha no domínio público e é notório.

E sabido que desde a ausência do Coronel Antônio Manoel Ferreira Maia, (a longos anos) a cujo lado sempre me achei nas operações do partido liberal, acompanhando o inabalável em todas as suas fases, saboreando seus triunfos e compartilhando seus revezes, assumi nesta vila, por consenso e unanime aprovação dos amigos e correligionários, a direção do partido liberal, convocando-o a proporção que era chamado a comparecer ao pleito, não poucas vezes arrostando com a prepotência de adversários intransigentes a sombra do poder, para manter ilesa a independência e dignidade do partido.

Nessas condições pleiteei as eleições de 1876, cabendo ao partido liberal daqui o 3º do eleitorado, vereadores e juiz de paz.

Quando em 1878 subiu ao poder o Partido Liberal, apesar da horrível seca que desolava a Província e aniquilava o sertão, achei-me de pé firme na vanguarda do partido: então, com mais afã dediquei-me aos serviços, que de mim reclamavam as ideias que sempre abracei e os amigos que me distinguiram com os seus pedidos e considerações, solicitando minha coadjuvação local.

Curando ao mesmo tempo da salvação da pobreza desvalida, que então absorvia todas as atenções, acompanhei todos os pleitos eleitorais que se seguiram, mantendo a maior harmonia possível no seio do partido que representava e satisfazendo sem distinção as exigências dos candidatos, tendo em consideração somente a elevação das legitimas influencias, assentes com os princípios de honra e honestidade que reclamavam os importantes lugares que solicitavam.

Assim, não fazendo distinção pessoal, procurei corresponder com igualdade a confiança em mim depositada, já pelo digno Centro Provincial, já pelos diversos correligionários de dentro e fora da Província, que exigiam o apoio de minha humilde influencia em prol de suas candidaturas, quiçás em épocas bem melindrosas.

Com a independência compatível com os interesses do partido liberal, ainda depois do rompimento deste, que de coração deploro, conservei-me na maior neutralidade, buscando somente conciliar os ânimos e sufragar os liberais sinceros que denodadamente trabalham em defesa de nossa causa e das principais conveniências do país.

Para alcançar este desideratum, pus em contribuição todos os meus esforços, não poupando os maiores sacrifícios pessoais e pecuniários e no intuito de consolidar a união politica do partido, ameaçado de pequenas desavenças, que a fortiori lhe queria implantar o Sr. Custódio Ribeiro, que audaz e pretencioso visava desautorizar-me, introduzindo a cizânia no seio do partido, como soe praticar onde quer que se acha; ainda assim, digo, com detrimento de amigos prestimosos e caros, cujos méritos estavam muito além de meus serviços, adoptei na ultima eleição senatorial a chapa da liga, sendo votada promiscuamente com a chapa liberal e ficando melhor aquinhoada que esta.

Releve acrescentar os Srs. Paulo Pessoa, a quem nunca ofendi antes adoptei com lealdade suas diversas candidaturas passadas, como pode dar testemunho o Conselheiro Vicente Alves na penúltima eleição senatorial e Dr. Rodrigues Junior por se seu cunhado, o finado Dr. Paula Pessoa Filho, não se tinham dirigido a mim na recente eleição; constando-me, ao contrario, e com desprazer, que haviam encarregado para o pleito ao Sr. Custódio Ribeiro, que aqui chegara do Icó em 1878 como emigrante e não podia inspirar confiança politica nesta Paroquia, onde não dispunha de elementos de natureza alguma e onde acabava de pedir-me e obter 10 votos em favor da candidatura de seu protetor – o Barão do Crato, na referida eleição que foi anulada; favor, que aquele cidadão não pode conseguir nem mesmo no Icó, donde era oriundo!

A despeito de semelhante procedimento, que um menos refletido e prudente teria com razão considerada como positiva ameaça e até ingratidão, abandonando desde logo a causa de correligionários, que por considerações de momento abriam mão de amigos fieis e dedicados para entregar-se ao capricho e vil ambição de nulidades politicas; sendo que ninguém me poderia por certo censurar, se em tais condições aceitasse o desafio e negasse o meu patrocínio a quem não tinha solicitado; todavia, o  moderação, a prudência e o sentimento de lealdade fizeram-me desprezar tamanha desconsideração e olhar somente para o bem estar da família liberal, a cuja manutenção e solidariedade se encaminharam todos os meus votos e aspirações.

Nesse proposito ainda mantive minha assinatura ao Cearense, embora hoje desviado do Centro Liberal e convertido em azorrague contra características honestas e antigos servidores das ideias liberais; tendo alias outro órgão na imprensa, em cujas colunas tenho sido honrosamente defendido e elogiado, ao passo que O Cearense, menos reconhecido sem duvida a minha lealdade e dedicação, faz em suas paginas e por conta própria a apoteose do Sr. Custódio, cujo serviço único ao partido e ao próprio Cearense, de quem nunca gostou, foi a escalada da Matriz e a duplicata fosfórica e fraudulenta que simulou, para agradar seus novos aliados, serviço com que espera granjear a importância que ostenta para suplantar a velhos e prestimosos lidadores, que cometeram o grave pecado de não crer em seu falso evangelho, nem recuam diante de suas aterradoras ameaças de exterminar aqueles mesmos a quem ontem suplicava cabisbaixo favores para os seus patronos e indicava planos tenebrosos para as mais dolorosas reações aos conservadores, afim de mais facilmente conseguir a discórdia desta terra hospitaleira, que teria incontestável direito a gratidão do Sr. Custodio Ribeiro, se por ventura S. S. fosse susceptível desse sentimento tão indispensável.

Feitas essas ligeiras considerações, que não creio sejam criteriosamente contestadas, julgue o partido liberal e o publico sensato e desprevenido – se fui eu que faltou a firmeza e lealdade politica, sofrendo em silencio desconsideração e desprezo e ainda assim, sustentando minha adesão a causa comum; ou se foi o Cearense quem, esquecido das normas mais triviais de confraternização e fidelidade, atira-me a face o mais solene vitupério e positiva afronta considerando chefe liberal do Limoeiro, não mais aquele, que com dignidade e constância nunca desmentida sempre apoiou e satisfez os pedidos de seus proprietários; mas sim o seu prestimoso amigo de hoje, Custódio Ribeiro, tão cheio de serviços imorredouros ao partido liberal, quanto sua imaginação é fértil em pretensões esdruxulas e insensatas.

Acudindo, pois, por minha parte ao cartel atirado pelo Cearense, a que me refiro, confio que o partido liberal desta paroquia e município por sua vez declare se, com efeito, aceita por seu prestimoso chefe o personagem, que lhe oferece o Cearense, como que escarnecendo dos homens de bem, que merecem se deles faça melhor ideia, e não se sujeitaram certamente (a não ser meras criaturas inconscientes, que se iludem com promessas fátuas) a direção de quem lhes não merecem confiança e ainda não pode arvorar sua bandeira nos diferentes onde tem militado, sempre com infidelidade de sua parte e prejuízo para a causa pública.

Limoeiro, 28 de janeiro de 1881

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