Limoeiro 23 de fevereiro de 1881
A Mentira em Ação
O Cearense Nº 34 de
13 do cadente mês, notícia minha exoneração de Delegado deste termo, sob
pretexto de ter mudado de domicilio.
Pouco, ou nada, me
incomoda a destituição do cargo, que só exercia para satisfazer amigos e não
negar o meu fraco contingente a politica a que tenho a honra de pertencer.
O que, porém, sobre
modo me surpreende e não posso deixar passar desapercebido, é o motivo para que
assenta a demissão – mudança de domicilio;
e não sei o que mais deva admirar: se o cinismo como que se ilaqueia a boa fé
da autoridade superior, se a docilidade do chefe de policia, movendo-se ao
impulso de vis e detestáveis paixões para solicitar minha demissão: dando
credito a falsa asserção que lhe ministrou o Sr. Custódio Ribeiro, ente
sobejamente conhecido como capaz de praticar as maiores infâmias, com tanto que
produzam o resultado apetecido.
Não podendo fazer
vingar seu primeiro invento de ter eu tomado parte no pleito eleitoral,
socorre-se a outro meio, tão indigno e infiel como aquele, porém mais natural e
até plausível, se fosse verdadeiro, afim de obter minha demissão, para o que
dizia nas calçadas que havia de fazer tudo.
Este seu tudo é o
complexo do que há de mais impudente e imoral e o sacrifício do que há mais
caro no homem, para leva-lo a crer que –
a mentira muitas vezes repetida torna-se verdade.
Razão tem o Sr. Custódio
Ribeiro para acreditar nesta máxima,
quando vê coroados seus esforços.
Pouco me importava
que o Sr. Dr. Chefe propusesse minha demissão a bem do serviço publico, a
semelhança de muitos cidadãos respeitáveis, que tem caído vitimas de crime
igual ao meu – a independência de caráter e o cumprimento do dever; mas a tanto
se não atreveria S. Sª., sob pena de passar por contraditório e inconsequente.
Presumo mesmo que
sua S. Sª. sentirá remorsos de seu ato, porém os interesses de amigos a quem
serve o de movem talvez de seu proposito
de somente distribuir justiça, para satisfazer pretensões desarrazoadas e ódios
mal contidos.
Esta minha
convicção se robustece tanto mais, quando sei que o Sr. Dr. Chefe de policia
incumbira à pessoa de sua confiança para verificar a inexatidão da informação
que recebeu.
Pilatos, condenando
a Jesus Cristo por amor de seus inimigos, lavou as mãos arrependido,
declarando-se inocente do sangue do justo.
Sua confissão,
porém nada lhe aproveitou, visto que tinha obrado por mera cobardia,
tornando-se surdo a voz da consciência e, por conseguinte réu de sua fraqueza.
Pois bem, o Sr. Dr.
Chefe de policia digo, que continuo a morar onde sempre morei desde que fui
nomeado Delegado, ou antes, desde que nasci no termo, freguesia e distrito do
Limoeiro e em abono de minha palavra ofereço-lhe o testemunho do Sr. Custódio
Ribeiro, que não negará, ao menos em
publico, que inda hoje moro onde sempre morei no mesmo lugar de onde S. S.
se refugiou em 68, quando após a queda do seu progresso era chamado as contas
na cidade do Icó.
No entanto pode nomear
em meu lugar, qualquer proletário de sua indicação para poder contemplá-lo no
alistamento militar e servir de instrumento cego contra as pessoas que lhe são
desafetos. Ainda assim não conseguirá os seus fins; quando faltar a força do
direito, surgirá o direito da força.
Esta localidade
nimiamente pacifica há bem pouco tempo, pela índole de seus habitantes, hoje
infelizmente se vê a braços com a discórdia e a baixa intriga, que com maior
açodamento e desplante lhe têm inoculado o Sr. Custódio Ribeiro, pouco
zeloso de sua reputação, a qual cavando a ruina da população que finge proteger
sonha a cada instante com a posição que o seu fôfo orgulho lhe depara, que por
isso mesmo que assenta em base falsa, terá tanta estabilidade apenas cesse o
desvario das paixões politicas criadas pelas circunstancias do momento, como o
fumo a mercê dos ventos.
Nada diria se o Sr.
Custódio Ribeiro conseguisse seus planos sinistros por merecimento
próprio, e empunhando as armas da verdade e da razão; mas, por meio de manejos os
mais indecorosos, pelas mais desfaçadas e repugnantes sofismas, é por demais
vergonhoso, horripilante e provoca por certo a indignação de quem detesta a
infâmia, a calunia, a mentira e a perversidade. Estou em meu ponto sem
retroceder um passo.
Diz-me a
consciência, que no exercício do cargo de que acabo de ser deposto, fiz o que
era humanamente possível para bem cumprir o meu dever e se por ventura alguma
coisa deixei de fazer, foi sem duvida por falta de conhecimento ou erro de
oficio, nunca, porém por falta de boa vontade.
Tão pouco me
prevaleci no cargo que ora deixo, para tomar qualquer vingança contra este ou
aquele; nem para facilitar arranjos da família.
Desejo que o Sr.
Dr. Chefe de policia tenha, no novo nomeado, um auxiliar de sua fé.
Limoeiro 23 de fevereiro de 1881










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