Jornal do Ceará, 8 de outubro de 1902

                                                   José Osterne Ferreira Maia
 

VARIOLA

E VACINAÇÃO NO CEARÁ

Rodolpho Theophilo

Vacina

XVIII

Estava eu no fim do segundo ano de trabalho e não havia observado em algumas mil pessoas, que tinha vacinado um acidente se quer.

Pratico a vacinação observando os preceitos da assepsia, não com o rigor aconselhado por muitos autores. Não vejo razão, por exemplo, para fazer a desinfecção da lanceta todas as vezes que vacino indivíduos de pele sã. Limito-me a limpar o instrumento em algodão asséptico. Quando a pele do vacinando é suspeita, tenho então o maior cuidado de desinfetar a lanceta expondo ao calor da chama de uma lâmpada de álcool até a lamina ficar quase incandescente.

Como sabe-se as complicações da vacina são diversas a receptividade do individuo, a falta de assepsia dos instrumentos vacinadores ou também a infecção do meio.

Há ainda as complicações devida a diátese do individuo vacinífero, que são a sífilis vacinal e a vacina ulcerosa sifilítica. Destas não me ocupo, porquanto não inoculando eu a vacina humana não podia observá-las. Os casos de fleimão, lymphagite, erisipela, não os tive até hoje.

Tenho notado que a vacina passada diretamente do vitelo ao homem evolui mais depressa, ordinariamente no terceiro dia; a inflamação dos tecidos é maior, a aureola mais rubra, devido isso talvez há micróbios estranhos ao vírus vacinal.

Em compensação também o resultado em pessoa não vacinada é completo, isto é, não se perde uma inoculação.

A polpa vacinica glicerinada, recente, produz também efeitos magníficos, 96% e a inflamação não é tão intensa e, portanto menos incomoda.

Não tive ainda ocasião de observar, a vacina generalizada. Caso raro, porém, notado por alguns autores. Nunca vi, até hoje desenvolverem-se pústulas vacínicas a não ser no lugar das inoculações.

A inoculação da vacina é ordinariamente de cinco dias, porém, tenho observado, raras vezes, aquele período prolongar-se até dez dias e isso sem prejuízo do bom resultado da vacinação ou antes da perfeita normalidade das pústulas. Essa evolução tardia não depende da vacina e sim do individuo. Verifiquei em duas crianças vacinadas com a polpa vacinica do mesmo tubo, em uma a evolução começou a fazer-se no quinto dia, na outra só no nono. Ambas tiveram muito boa vacina.

A proposito disso publico em seguida um fato interessante que me comunicou o comissário vacinador do Limoeiro. É um caso extraordinário e só o levo a publicidade porque a pessoa que o observou merece toda fé e por não poder explicá-lo não segue-se que deva ocultá-la nesta memoria, cujo fim é fazer a propaganda da vacina animal e tornar conhecidas as minhas informações.

 

     Ilmº. Sr. Rodolpho Theophilo.

  Respondo à patriótica e humanitária carta de V. S. em que solicita o meu humilde concurso ao grande tentame da mais nobilitante cruzada de beneficência.

  Já de a muito conhecia o esforço tenaz, a coragem resoluta, a acendrada caridade que o animavam nessa gloriosa campanha que um dia imortalizará o seu nome, se por outros títulos igualmente nobres, igualmente respeitáveis ele já não fosse conhecido e aureolado de luz.

    Eu o admiro como cearense, fanático pelas glorias de minha terra.

    Eu o bendigo, como homem avido do bem, dele carecedor e dele pregoeiro.

    Como é consolador ser bom, ter consciência de ter feito sempre o bem! Como é sublime ter a consciência do que valemos, ter a grandeza da força, mas, da força que dignifica, da força que nobilita, da força que exemplifica.

    Seja o vosso nome um repto atirado a negligencia dos que não sabem  ou não querem cumprir os graves e penosos deveres que lhes confiaram o mérito do saber, a consciência do juramento que um dia prestaram, a certeza do compromisso que um dia assumiram, a dedicação que um dia prometeram.

    Eu sou um crente fervoroso da vacina antivariólica. Aqui em 1900 prestei o modesto contingente de meu esforço vacinando muita gente e levando este beneficio até Alto Santo, povoação que dista desta cidade 12 léguas.

    Aproveito a oportunidade para contar-vos um fato que servirá para vossos estudos. No tempo que se vacinou aqui o povo, vacinaram pessoas da família do Sr. José Candido Malveira e entre essas uma menina filha deste. A vacina foi a mesma, isto é, a Linfa foi a mesma, fornecida por um só individuo e praticada de braço a braço.

    Pois bem, em todas as pessoas manifestaram os melhores efeitos, a exceção daquela menina que nada sofreu. Era refrataria pensou-se.

     Sabe o que aconteceu? Um ano ou mais de um ano depois daquela inoculação, a menina caiu em estado febril e no lugar que se havia inoculado a linfa se desenvolveram as pústulas vacinais, que encheram e depois secaram dentro do periodo normal deixando marcas como as da melhor vacina. Este fato foi publicado e notório aqui e ainda nesse momento me foi lembrado pelos irmãos da criança.    

   O que foi que retardou tanto o desenvolvimento da vacina? Como pode se explicar este fato? Podeis contar com a minha dedicação a nobre causa que defendeis.

                               Vosso amigo e admirador

                             José Osterne Ferreira Maia

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • Twitter
  • RSS

0 Response to "Jornal do Ceará, 8 de outubro de 1902"

Postar um comentário