Jornal A Cidade, 24 de março de 1902

 

LIMOEIRO

    SENHOR REDATOR – Saudo-o. Chego tarde a tempo porém ainda de erguer a cortina de sua gloriosa tenda, e depositar no altar da gratidão publica as pobres flores da minha admiração profunda de minha intima simpatia “A Cidade,” pela sua brilhante vitoria nessa pugna sacro – augusta do direito cujos louros se enfaixam na mais bela coroa, a lhe ornar a fronte de paladino do bem.

    De luz é a caminho que a “A Cidade” há traçado em sua difícil, mas vitoriosa passagem: luz a difundir a verdade a desalentada alma popular; luz a esclarecer deveres que a descrença ia pouco a pouco embotando na alma das multidões; luz a desvendar perigos que cercavam as liberdades; luz a mostrar abismos em que se iam desprenhar as prerrogativas sociais; luz a espancar as trevas em que se tramava contra o direito, contra a razão, contra a justiça!

     É belo ter sido o arauto das liberdades publicas; mais e mais belo – ser a luz que iluminou o templo em que discutiam essas liberdades onde se reivindicou o gozo e a plenitude delas. E “A Cidade” foi essa luz, luz puríssima, luz perfulgentissima em meio o norte de nossa degeneração social, clareando as consciências sãs, tonificando-as dignificando-as e enaltecendo-as para essa luto do direito, e que a conta como o mais bela ano de sua existência.

    E quanto das dobras do passado se escrever a história desse momento – porventura o mais angustioso de nossa vida politica – quando desemcombro desse edifício social que o perpassar das idades derribara e que os conhecimentos humanos reconstruíram mais belo, mais altaneiro e mais durável, sobre bases também mais rijas mais largas e mais estáveis, os nomes desse arouto, desse pregoeiro, desse templo e dessa luz – cobertas de suas glórias e de seus loureis hão de ficar – marco miliário a atestar o que foi o valor, a coragem  e a abnegação de uma legião de valentes que nunca voltaram o rosto, nunca tremeram que como os soldados de Leônidas nos despenhadeiros da Termopilas, cantando com a  morte apenas poderiam deixar como recomendação aos porvendouros, no monumento de sua glória, aquelas mesmas solenes palavras simples mas sublimes: “Viandante vai dizer a Sparta que seus filhos morreram defendendo-a”.

    Eu abraço de longe mesmo e o derramar de minhas pobres flores nesse altar da gratidão publica, faço votos para que o ano que para “A Cidade”. – começa seja o da Redenção de um grande povo. – adeus.

                                                              Seu amigo e admirador

                                                           José Osterne Ferreira Maia

                                                                    7 de março de 1902

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