Jornal Cearense de 20 de fevereiro de 1867

 LIMOEIRO – Os liberais foram violentados a não tomar parte nos comícios eleitorais: triunfaram os punhais e cacetes da facção renegada, desenvolta e esforçada pelas baionetas do Governo. Eis o que dali nos escrevem em data de 4 de fevereiro de 1867.

Apesar das cassadas humanas e frequentes correrias e toda sorte de perseguições ao partido Liberal desta localidade, para arredá-lo do pleito eleitoral, tive a grata satisfação de vê-lo concorrer a Assembleia Paroquial mais compacto e pujante que em quadras melhores: é que, o despotismo ainda não quis convencer-se de que ele próprio é que se encarrega de forjar as armas com que tem de ser ferido.

Cerca de 300 cidadãos respeitáveis por sua posição social, guiaram a massa dos nossos votantes até a vila, onde reconhecida sua superioridade numérica sobre o pequeno grupo de renegados, que aqui aspirar os foros de um partido, pode-se bem calcular a extensão do nosso triunfos.

Receando o subdelegado que a ousadia – própria dos renegados – animada pelo protetorado administrativo, perturbasse a marcha regular das eleições – que jamais poderiam vencer – propôs a uma e entra parcialidade politica, a providência de serem corridas pela policia todos os votantes, a fim de obstar o ingresso de armas na igreja.

Aceito este alvitre por ambos os lados, privarem-se os nossos em continente, até de suas inofensivas chibatas.

Quando assim procedíamos, via-se com surpresa, o grupo de renegados alojar-se em um dos corredores laterais da igreja, subtraindo-se, ao mesmo tempo, a medida policial previamente convencionada.

De balde opôs-lhes o subdelegado a conveniência da busca, nas pessoas e corredores da igreja, onde segundo denuncias, haviam armas enterradas: de balde; porque o juiz de paz – renegado em ragé era o primeiro a combater e opor-se a essa medida preventiva.

Nestas condições começaram os trabalhos da organização da mesa.

Formou o juiz de paz a primeira turma, dos três juízes, seus imediatos em votos, e um suplente; houve empate e a sorte decidiu um membro liberal e outro renegado: seguiu-se a formação da segunda com os suplentes; só existiam destes, dois, visto como, um fora chamado para compor a primeira turma e outro tinha perdido o lugar por mudança de domicilio; sendo esses dois liberais e reconhecendo o juiz de paz, que chamando-os ficaria a mesa organizada com maioria liberal; obstinou-se em não chama-los e teve o cinismo de declarar que só chamaria a dois amigos do seu lado.

De feito, não obstante a presença dos dois mesários legais, que reclamavam seus lugares, opondo ao juiz de paz razões de incompetência para decidir tais questões; determinou este que os tais dois amigos do seu lado tomassem assento a força.

Tão absurda e brusca imposição deu lugar a alguns reclamos da nossa parte. Foi isto o bastante para se desenfrearem as fúrias renegadas, assaltando-nos de punhais e cacetes, que tinham adrede, enterrado nos corredores da igreja. Limitados as nossas defesas inerme, não teve tão brutal acometimento outro resultado mais que algumas cacetadas, bofetões, etc. Evacuada a Igreja, depois do conflito, foi horas depois, ocupada pelos salteadores da liberdade do voto, que organizaram um simulacro de mesa, da qual, excluíram até o liberal que já havia tomado assento na formação da primeira turma.

No dia seguinte 14 granadeiras da Guarda Nacional vieram de Russas firmar o direito da força e convencer praticamente ao infeliz povo, que, por fas ou por nefas, deve delegar ao governo e seus vândalos  a faculdade de eleger.

Até quando meu amigo?............................

Praza a Deus que o – Vae victis – com que se esmaga a soberania do povo, não lhe desperte um dia o – Vae victoribus. – Não desejo ouvi-lo; mas temo.   ..O dormir de um povo livre não é eterno – não é a morte. 

                           De Antônio Manoel Ferreira Maia

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