Jornal Pacotilha – São Luiz, 10 de agosto de 1927

 

Padre Vital Gurgel Guedes

Vida Religiosa 

Lampião, o bandoleiro e o padre Vital Guedes, vigário de Limoeiro (Ceará). 

Da folha do norte de Belém do Pará, 21 de janeiro de 1927, Nº 11.502, jornal que é lido diariamente, por mais de vinte mil pessoas, transladamos para as colunas deste jornal, na capital cearense, obteve do Sr. Francisco Lages, residente na cidade de Limoeiro e que ai se achava quando Lampião e seus sequazes, repelidos pela população de Mossoró, no Rio Grande do Norte, ingressaram em terras cearenses.

Eis o trecho aludido:

“Levantando-se do Jantar, Lampião e Sabino, que é chefe de um grupo, propuseram ao declarante que providenciasse sobre a aquisição de baralhos e se encarregasse de arrecadar o barato do jogo, em que seus homens deveriam passas a noite e que esse barato deveria produzir no mínimo dois contos de reis.

E, seguida, Lampião saiu do hotel e encaminhou-se para a igreja, as 17 horas, acompanhado do vigário padre Vital Guedes. Na igreja Lampião declarando que era muito religioso, fez orações.

Tendo-lhe o padre apresentado o cofre da matriz, Lampião tirou da carteira uma cédula de 200$000 reis e nela a depositou. Depois deu ordem aos bandoleiros para que todos concorressem com esmolas.

Do meio para o fim, o cofre já cheio, foi mister que as cédulas fossem empurradas a punhal.

Retirando-se da igreja, Lampião dirigiu-se novamente para o telegrafo, onde foi comunicar-se com a estação do Aracati, tendo nessa ocasião manifestado suas simpatias pelo governo cearense, o qual nunca procurara persegui-lo.

Conversando com o telegrafista de Limoeiro Eugênio Maia disse-lhe o bandido que ele e seu filho responderiam com a vida se alguma força chegasse a localidade”. 

Após a leitura desse tópico, digno de ser estudado recomendado pelas penas dos grandes psicólogos Balzac e Mantegazza, nos corre fazer a seguinte pergunta:

Quem é mais criminoso aos olhos de Deus: - O bandido ignorante e fanático que julga ao Criador, com oferta de 200$000, fruto dos seus inúmeros latrocínios ou o padre inteligente e sagaz, conhecedor dos 10 mandamentos da lei divina e que se aproveita do fanatismo e da beatice do famoso bandoleiro para haver destes e dos seus assalariados a quantia mencionada?

Se o padre Vital compreendesse qual o seu papel, no caso em foco, como pastor das almas, outra teria sido certamente a sua atitude. Em vez de ter aceitado pressurosamente cédulas que eram empurradas a punhal, para o fundo do cofre da matriz, teria ao contrário aconselhado Lampião a abandonar o cangaço e a se reconciliar com Deus, pela prática do mais sincero arrependimento.

Mas, deslembrado dos mandamentos do Decálogo, que recomendam que se não deve matar e roubar, o padre Vital (padre faturista em pleno sertão) julgou mais cômodo esquecer que Lampião é um contumaz exterminador de vidas e aceita com o riso nos lábios, o dinheiro que ele trazia ainda tinto do sangue das suas vitimas.

E é assim, ó Deus de misericórdia! Que se faz a propaganda do Cristianismo nos sertões do nossa pátria.

Não admira, portanto, que hajam criminosos nas cidades sertanejas de meio-norte. Eles sempre existirão, enquanto existirem criaturas desse jaz.

Disse Jesus: “Se um cedo conduz outro cego, ambos sairão ao mesmo passo”. Nunca esta frase de Cristo foi tão bem aplicada como agora, no caso escandaloso e revoltante do padre Vital.

É possível que a crendice do bandoleiro seja mais sincera do que a fé do vigário do Limoeiro. Este, pela sua atitude, revelou-se mais amigo da mão boa, o bezerro de ouro, do que de Deus.

Triste e dolorosa lição dos tempos correntes.

Carlos B. de Sousa

C. E. M.

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