Jornal O Cearense, 30 de janeiro de 1880
GRATIDÃO
Ainda
sob a dolorosa pressão que me causou a falecimento do meu estimado pai,
sucedido após longos padecimentos do fatal dia 4 do corrente e carpindo
lagrimas de saudades sobre o seu tumulo, venho a imprensa significar meu intimo
reconhecimento a todos os habitantes desta localidade, que generosamente
dedicaram-me os seus obséquios, já oferecendo-me seus prestimosos serviços
durante a moléstia dele, já acompanhando-me no profundo sentimento que ainda
lacera-me o coração e finalmente assistindo aos sufrágios que mandei celebrar
no 1º e 3º dia, pelo eterno descanso do
finado.
Uma
tão liberal prova de estima e consideração que, a despeito da minha nulidade,
acaba de manifestar-me a população desta vila, além de captar eterno
agradecimento de minha parte, põe em relevo da minha mais fiel os sentimentos
religiosos e cavalheirismo do bom povo
limoeirense a quem desde já hipoteco as mais cordiais simpatias e ofereço
meus débeis serviços na esfera de minha possibilidade.
Rendendo
um preito de legitima homenagem a população em geral, cumpro o imprescindível
dever de agradecer mui especialmente ao Rvd. Vigário da freguesia, padre
Joaquim de Menezes Silva, caráter distinto, sacerdote virtuoso, que, qual
verdadeiro ministro da religião do crucificado, não poupou esforços, nem
sacrifícios sempre que foram reclamados seus serviços paroquiais, quer
estimulando meu caro progenitor a suportar com paciência e resignação seus
longos e dolosos sofrimentos, quer ministrando-lhe todos os socorros
espirituais, predispondo-o assim para arrastar com louvável serenidade o
eminente perigo, que o doente, merci Dieu,
sempre encarou com valor apostólico, expirando nas melhores disposições, cheio
de confiança e pronunciando até seus últimos momentos o doce nome daquele que por amoe da humanidade
morreu crucificado dans une croix!
O
zelo do Rvd. Vigário Menezes merece ainda mais o titulo de virtude, atento o
desinteresse pecuniário com que ele procede, dispensando quase sempre os
benesses que lhe são devidos, e derramando no seio da indigência o pouco que
recebe!
Dispense
o Rvd. Vigário se a sua reconhecida modéstia com esta singela demonstração de
apreço e acatamento que me sugere os sentimentos de gratidão, a que não posso
jamais ser indiferente sem faltar a um rigoroso
dever.
Limoeiro,
7 de janeiro de 1880.
José
Antônio de Queiroz e Mello.










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