Jornal Correio Paulistano, 28 de abril de 1878
De
uma carta escrita do Aracaty em 8 do corrente, pelo Sr. João Luiz Tavares da
Silva, farmacêutico ali estabelecido, “o jornal do Recife” extraiu o seguinte:
“A
crise que atravessamos é tão horrorosa que já os cadáveres já ficam insepultos
no cemitério em número de 80 e em estado de putrefação, como hoje sucedeu, por
falta de quem os enterrasse, apesar de haver nesta cidade número superior a
40.000 miseráveis indigentes!
Como
lhe explicar isso não sei, o que sei é que os cadáveres lá estavam hoje e os
corvos já esvoaçavam em torno do cemitério!! A mortalidade diária já chega a
156 e a maior parte morre a fome; esta é a verdade.
Como
viver em uma cidade assim? Será ou não uma cidade maldita? Há dois meses que
vivo de arribada, ora na botica e ora no campo, até que ultimamente me resolvi
a fazer uma choupana distante duas léguas da cidade onde me acho com a família,
a fim de ver se me distraio e se não sucumbe o meu espirito. Vim hoje a cidade
escrever-lhe e mesmo para não abandonar de todo a botica, onde não se tem
descanso, despachando receitas para o povo – retirante – por conta do governo,
porém, nada disso compensa as aflições que se tem, a vista do horror que
observa-se”
-
Da Constituição de 7 do corrente:.
“Horrores
da Fome – Ontem pelas 11 e ½ horas do dia assistimos a uma cena horrorosa. Uma
pobre família do Limoeiro, que tinha ido pedir socorros ao Presidente da
Província, teve ver falecerem a fome nas escadas do palácio dois filhos seus,
um de 5 anos de idade e outro de 8 a 10 anos.
Esta
desgraçada família já a dois dias, se achava nesta cidade, mas, tal é a ordem
de não socorrer os miseráveis retirantes, que tem os comissários do Sr. Dr. José
Júlio, que ela não encontrou durante todo esse tempo um coração compassivo e filantrópico
que lhe fornecesse por parte do governo o mínimo socorro.
Desenganada
recorreu a S. Excª. quando foi surpreendida nas portas de palácio pela morte de
dois filhos e sendo levada, depois dessa cena de horror, por um dos ordenanças
da Presidência a presença da comissão de prontos socorros, de que é “presidente”
o Sr. Comandante da policia, esta deu para matar a fome dos seis membros da
referida família, que ainda restavam vivos, meio litro de farinha e meio quilo
de carne!
É
incrível semelhante fato, mas, é verdadeiro e foi por nós testemunhado!
Este
acontecimento, porém, é a legitima consequência da forçada restrição dos
socorros recomendada pelo Sr. Dr. José Júlio; é ainda mais, corolário logico da
condescendência de S. Excª. para com os comissários cruéis e desalmados.
Oh!
Têmpora, oh! Mores!
Já
se morre a míngua até nas próprias escadas do palácio!
Deus
de compadeça de nós, já que o governo se mostra surdo aos nossos clamores.
Sr.
Dr. José Júlio, tenha piedade de seus infelizes patrícios, e providencie de
modo a evitar que se reproduzam cenas tão horripilantes. O povo precisa ser
socorrido com mais prontidão para que a fome não o leve ao desespero.










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