Limoeiro, 20 de março de 1881

                                                  Villa do Limoeiro

Erguendo-me da cama onde os meus padecimentos prostraram-me longos dias, só agora pude ler os jornais e então com surpresa e assombro vi, que feita a apuração dos colégios da província para formação da lista dupla, foi apurada a eleição daqui em separado, considerada assim duplicata, para dar preferencia a força ridícula, fraudulenta e imoral, que aqui representou o Sr. Custódio.

Apesar de fugir das ocasiões de entreter polemica pela imprensa, contudo não posso, sem faltar a consciência, negar-me de aparecer em publico, não para exibir inteligência, que não possuo, mas, para dizer simplesmente a verdade e faço-o com tanto mais direito, quando fui eu um dos signatários do protesto apresentado contra a decantada eleição, que a menor nulidade que guarda em seu ventre é – dez eleitores não elegíveis!

A respeito de outra qualquer eleição, taxada de irregular e como tal rejeitada, nada me atreveria a dizer, por não ter dela conhecimento; porém, acerca da eleição daqui, eleição procedida com o mais rigoroso escrúpulo e que encerra a legitima expressão da vontade popular livremente manifestada pelos dois partidos, que unidos concorreram ao pleito, dispondo do juiz de paz competente e do corpo eleitoral, não posso deixar, por maiores que sejam as considerações ao meu partido, de como membro dele, embora humilde, profligar e censurar bem alto o procedimento da atual câmara apuradora, considerando regular e legitima a força vergonhosa dirigida pelo Sr. Custódio e lançado a margem com frio indiferentismo, a verdadeira eleição, onde se acham empenhados o pundonor e a honra do partido conservador desta vila, de envolta com pesados sacrifícios de correligionários leais, que de bom grado atiram-se a luta politica sem outro interesse mais do que a dedicação a causa do seu partido, pelo que ao menos tinham direito a melhor acolhimento, ou se quer, a uma palavra de consolação e limitivo as inúmeras picardias do Sr. Custódio.

Não venho encarecer o limitado serviço que prestei ao meu partido com o maior desinteresse; não venho somente pugnar pelo meu direito e dos amigos que me acompanharam por minha vez reproduzir o que já tantas vezes se tem dito, isto é: que a eleição engendrada pelo Sr. Custódio da a imagem de seu autor, por cujo molde foi vasada e para cumulo de miséria e vergonha para esta terra está sendo retribuída  pelas graças que o Sr. Custódio tem recebido, fazendo delegado de um pobre homem analfabeto e mentecapto, física e moralmente incapaz de exercer qualquer cargo; carcereiro, a Antônio Alves, conhecido por Antônio doudo e neste gosto espera montar o seu esquadrão; porque além do papel cômico que S. S. representa, goza de imunidade e alta proteção na comarca, de sorte que não recua diante da imprensa mais arriscada e temerária, uma vez que tenha quem o assessorei, até para lavrar atas falsas.

Oh! Têmpora, em que a indignidade, a mentira, a fraude tem preferencia a verdade e a moral!!!

Pobre desprotegido e até guerreado no meu dominante ramo de vida, não poderei bater-me vantajosamente com o Sr. Custódio, que dispõe de vastos recursos e para chegar a seus fins não encara os meios, como há bem pouco fez para obter admissão do delegado deste infeliz termo, dando como mudado, o que jamais pode provar. Mas, nem por isso hei de ceder-lhe o campo; pelo contrario no tempo mais critico é que costumo mostrar constância e fidelidade, ao inverso de certas figuras que hoje se acenam ufanosas; mas, que não tardaram a desertar das novas fileiras e volver com ares de arrependimento aos velhos arraiais de onde saíram, conservando na fronte o sinal indelével que os apontara a história como réprobos.

         Quando dissipado as trevas, forem chamados a prova as dedicações, veremos quem responde ao apelo e será o Sr. Custódio quem há de manter a integridade do partido conservador daqui, quando S. S. procura a todo transe desbaratá-lo.

         Sem embargos das astucias e manejos por S. S. empregados para arruinar pela base o elemento moral desta vila, que só gozou sossego enquanto o Sr. Custódio não teve a infausta lembrança de emigrar para ela, confio que seus planos hão de abortar; porque sua historia já é tão conhecida, que dispensa qualquer comentário, bastando para sua condenação escrever ou pronunciar lhe o nome.

         Bem sei que afinal a obra do Sr. Custódio, essa massa informe, terá que passar pela apreciação do senado e então será reduzida a seu valor intrínseco – a nada -; pois que semelhante peça jamais resistira a mais superficial analise.

No entanto é preciso não deixar em silencio esta grande conquista, visto como a impunidade é muitas vezes causa da reincidência no crime.

Assim, se para as pessoas de critério na eleição do Sr. Custódio, não obstante apurada, não passa de um fabula indecente e cavilosa, para os seus apaniguados constatou um feito brilhante, somente porque nele o Sr. Custódio provou as habilidades de que é capaz: mostrou que sabia escalar Igreja, ocultar o 1º juiz de paz dando-o como ausente e o eleitorado, fazer as eleições sem votantes e finalmente criar eleitores sucessivos, substitui-los um por outros e assim alcançar o resultado vantajoso que chamou – arroz com carne – 28 votos, que poucos dias depois produziram nas colunas do Cearense 33!!! Vergonha das vergonhas!

Mais tudo isso é nada, porque estou bem certo que para o Sr. Custodio os vocábulos – honra e infâmia – tout est la meme chose.

São assim os políticos de mérito e a custa de bravuras tais adquirem foros de chefe prestimoso, inteligente, honrado.

Aproveitem-no enquanto dura esta bonança.

Quanto assim continuarei no meu posto de honra, usando ao menos do direito inviolável de gemer quando for torturado.

Rogo, pois, Sr. Redator, que dê publicidade a estas linhas, pelas quais me responsabilizo.

Limoeiro, 20 de março de 1881.

João Anselmo da Silveira Vidal.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • Twitter
  • RSS

0 Response to "Limoeiro, 20 de março de 1881"

Postar um comentário