Jornal o Cearense, 22 de novembro de 1877

                                    Limoeiro, 26 de outubro de 1877

Estamos numa situação quase desesperada. A par da miséria que toma vastas proporções e por assim dizer se generaliza, surgem as patotas e os escândalos dos protegidos do Sr. Ibiapaba, os quais vão realizando suas maquinações embora sofra a causa pública e as vitimas das calamidades.

Há de saber que o João Ennes, por motivos inconfessáveis de ganancia e má vontade contra um dos membros da comissão, João Ennes queria que se fizesse de preferencia a obra do mercado, ao invés da casa da câmara municipal, havendo, entretanto nessa vila quartos suficientes para o mercado e não existindo edifício para a câmara municipal.

Suscitada a questão opôs-se a tão disparatada ideia o nosso amigo Candido Malveira que é um dos cidadãos mais importantes e beneméritos dessa freguesia e então também fazia parte da comissão. Sob representações deste e informações de pessoas desinteressadas consta-me que o Sr. Presidente da Província muito convenientemente mandou fazer a casa da câmara e não quartos para o mercado, dos quais não havia necessidade alguma por enquanto os que serviam para este mister tinham até de sobra e o dono os dava de graça.

Mas, João Ennes presidente da municipalidade para fazer uma pirraça de todo o ponto prejudicial ao público, fez questão de vida e morte junto do Barão de Ibiapaba e eis que se resolve mandar fazer o desnecessário mercado, onde o Sr. João Ennes melhor se arranjará com os parentes!

Esta decisão acintosa e própria da época patoteira e comanditária inaugurada pelos grandes da Corte, fez com que o Sr. Malveira pedisse sua demissão, realizando-se assim outro ardente desejo de João Ennes que muito se incomodava com a presença do homem mais popular e querido da freguesia do Limoeiro.

Consta-me que o governo mandou a muitos dias dois contos de reis para aqui e hoje chegou mais um conto, sendo todo esse dinheiro aplicado em empreitada de caibros, portas, soleiras, tijolos e outros objetos semelhantes, dizer que os amigos ganharam as esmolas ou serão socorridos em seus apuros financeiros, e nem um vintém para os pobres e famintos retirantes. Faz horror ver o estado desses infelizes, que são outros tantos esqueletos ambulantes que aos centos passam por aqui de dia e de noite caindo de fome.

E a patriótica comissão não lhes presta o socorro! É isso o que não se pode tolerar, nem sei como já não houve algum movimento de reação contra tais desalmados.

Os moradores desta vila já estão completamente exaustos, não podem mais socorrer os infelizes, sob pena de também morrerem de fome!

Consta que há muito tempo o governo entregou ao Sr. padre Bessa uma porção de farinha e outros gêneros com destino ao Limoeiro e que tendo S. Rvmº. embarcado a para o Aracaty, não deu ordens para ser remetida para aqui; pelo que tendo a comissão mandado alguns carros buscar esses socorros, voltaram os carros vazios porque o encarregado declarou que os não entregava sem ordem do Padre! Nestas condições sem dinheiro, porque é para as empreitadas da grande obra do mercado, sem legumes que o Sr. padre Bessa deixa empatados no Aracaty, faça ideia do quadro aflitivo que se desenha aos nossos olhos! Peça ao governo que se compadeça da sorte desses infelizes que percorrem as ruas desta vila na maior miséria que se pode imaginar!

Cresce a cada dia a onda e quem sabe em que dará esta horrível debandada de famintos!

Anteontem aconteceu que passando umas cargas de farinha para o Icó foi atacado o comboio e tomada uma carga pelos retirantes a uma légua desta vila. Os retirantes estavam morrendo de fome e por aqui passaram, mas nada lhes deu a comissão.

Se pegar a moda estamos perdidos e brevemente as casas serão assaltadas. Não há policia e nem se sabe quem é autoridade!

Ainda não é tudo. Os donos da terra querem levar-nos ao desespero com as unhas da fome do fisco municipal.

Durante o mês de agosto, que era o tempo marcado para serem retocadas as frentes das casas, alguns proprietários que não puderam acabar esse serviço, pediram ao presidente da comissão para fazê-lo em tempo mais favorável e não havia mais razoável.

A nada se moveu o nosso homem, cujas finanças arruinadas ficaram desta vez restabelecidas a custa da humanidade. Saindo o fiscal a rua multou a torto e a direito em 10&000 e marcou o prazo de 30 dias para no caso de omissão pagar-se 20$000 (multa dobrada) e ainda em cima um processo no espinhaço!

Era tal a falta de dinheiro para acudirem-se as primeiras necessidades da vida que foi preciso vender até obras de ouro para evitar maior dano e a cadeia!

Vá ouvindo o resto. No dia 15 deste saiu o fiscal em correição para aferir pesos e medidas.

A câmara não tem um só padrão de pesos e nem de medidas; para fazer o serviço de aferição pedia emprestado a um e outro negociante, isso há 3 anos; nem jamais marcou o número de pesos e medidas que cada um devia ter. Pois bem no dia da correição foram todos multados, uns por falta de uma medida outros por falta de algum peso, sendo a multo de 4$000 e dez dias de prisão!

Só em um dia rendeu a verba multas 700$000 e tantos!

Para completar a obra resta todos serem metidos na cadeia!

E todos estão sob a terrível cominação nesta horrorosa quadra de tão espantosas misérias.

Que situação medonha! Será possível que tantas iniquidades subsistam?

Peço por nós alguma providencia ao Sr. presidente da Província: do contrario haverá algum movimento de indignação e desespero.

Isto não pode continuar assim.

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