Jornal Libertador, 15 de outubro de 1890

 

Limoeiro

É Estado no Estado

De Demócrito tomamos hoje emprestada a epigrafe que encima estas linhas para assim respondermos ao correspondente do Limoeiro para A Verdade, jornal clerical que se publica nesta Capital.

Desta vez os dois chefes políticos do Limoeiro subiram ao palco, e apareceram em cena, de batina, roquete, estola e ritual em punho, confessando, casando e batizando, sem beneplácito do diocesano.

Os dois velhos chefes os dois velhos chefes depois de casados, com filhos e netos, tomaram ordens sacras e meteram-se na igreja, donde só saíram em tempos de seca para as comissões de socorros. Por ora, um é vigário, o outro coadjutor.

O governo nada mais tem que dar, a igreja pode vencer e estarão sempre bem os filhos felizes do infeliz Limoeiro.

Não é mal que se procurem arranjar, esqueçam, porém o humilde escrivão do júri da Fortaleza, que já não pode chorar no Sermão, por não pertencer mais aquela freguesia.

Já fui também sacristão de um padre, nove anos e cinco meses e julgo-me indultado de todos os meus pecados pretéritos e futuros.

Sabem todos que fui ao Limoeiro no gozo de uma licença que me foi concedida pelo Exmº. Governador do Estado, mediante atestado médico, tratar de minha saúde profundamente alterada.

Sofria então da Influenza.

         O clima não me foi favorável, voltei.

Quando no Limoeiro estive de passagem aproximava-se a eleição.

         Vi a nobre atitude que tomaram os Rvds. Vigários dali.

Também só em algum funeral rico vi tantos padres juntos.

         Era uma algazarra infernal na igreja, que me parecia – Quem-quem, voando por cima de cobra, dentro de uma moita, a margem do rio.

         Falavam como Maracanã no ninho (vá sem alusão).

         Fizeram mês Mariano do mês de setembro, uma semana santa – da semana próxima a eleição, e diziam a missa a qualquer hora do dia e da noite!

         Tudo isso porque estavam extintas as comissões de socorros.

     O governo quer ali estabelecer um comissariado vitalício, com armazéns cheios de feijão, farinha e carne velha, terá eleição.

Assim não o fazendo, a eleição será da Igreja.

Tartufos!

Fortaleza, 8 de outubro de 1890.

Raymundo Carlos da Silva Peixoto.

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