Jornal do Ceará, 22 de abril de 1904

                                 O SR. CEL. CORREIA DE SOURE

Concluindo hoje a apreciação da eleição do Soure e o Sr. Correia, a qual já vai se tornando um pouco longa, deixarei sem comentário alguns fatos importantes, referentes ao assunto, para outra oportunidade.

Não taxe o publico de exaltado e violento o meu procedimento, atendendo que o despotismo provoca sempre a indignação e eu me vi forçado ante as inauditas violências e agressões de que fui vitima, a repeli-las e vir denuncia-las tais quais elas se deram, não as autoridades constituídas, cegas e surdas as queixas dos adversários oprimidos, sempre punidos com injurias e outros desacatos; mas, ao publico que, no seu foro justo e imparcial, nos tem de julgar, perante a sociedade.

Suponho, na minha boa fé e inocente credulidade, que as atenções dispensadas ao Sr. Correia me tornariam digno de seu respeito e consideração.

Entendia que os obséquios a ele prestados me dariam direito a esperar, senão a exigir que ele me fizesse justiça e me acatasse.

Iludi-me, porque suponha que os homens de bem ainda tivessem algum valor nesta terra.

Viu o publico, da exposição que fiz, que não fui o provocador e sim ofendido sobre a quem o Sr. Correia se atirou como lobo esfaimado no intuito de acobardar-me, privar-me de fazer a eleição e implantar a sua tolerância em Soure, como único homem capaz de dirigi-la em todas as épocas, com todas as politicas.

Eis a causa do seu ódio contra mim.

Não se queixe, portanto, de mim que sempre o considerei e o acatei.

Queixe-se unicamente de si próprio que, na gana infrene de ser poderoso, não atende aos preceitos da educação e das leis da humanidade, dando rédeas ao seu ódio mal contido e ofendendo aqueles a quem devia respeitar mandando dar o primeiro tiro contra mim e o segundo contra o virtuoso vigário.

Mas, não abuse demasiadamente do seu poderio, convencido de ser passível de toda e qualquer ofensa ou mal que fizer a outrem.

Este é o principio regulador da lei da moral sobre a humanidade.

Convença-se que nem sempre os bons e fervorosos cristãos têm nas algibeiras grandes deposito de paciência.

Há momentos de desvarios, em que se ofuscam a vista e os sentimentos de humanidade, não lobrigando, si quer, pendente da sublime arvore da redenção, a imagem pura e muitas vezes santa de Deus de bondade, derramando o balsamo encantador do perdão sobre aqueles que não sabem o que fazem.

Eis a causa de muitas desgraças!

Converte-se; porque nem sempre os judas da pátria e da amizade tem a felicidade do traidor de Cristo.

Nem sempre gozam da sombra frondosa de um funéreo Salgueiro, de cujos galhos distende o seu corpo inanimado, a beira de uma estrada, de onde fogem despavoridos os viandantes balbuciando, tomados de horror, uma frase de compaixão por tanta desgraça.

Eu sou Cristão; perdoo de todo meu coração.

                                                                                            
                                                                                             Theophilo Bezerra Filho. 

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