Jornal do Ceará, 10 de outubro de 1904

 

Notícia dada em 10 de outubro de 1904 pelo jornal do Ceará: Politico, Comercial e Noticioso, com o titulo “Duas Palavras”.

A zona Jaguaribana especialmente na parte que toca o Limoeiro, Russas, União e o Aracaty atravessam uma grande crise.

Muitas famílias andam mendigando o pão nas estradas e ruas cujas fontes de receitas estão paralisadas. Diversas pessoas têm morrido de fome e se a providencia não socorrer com sua misericórdia aquelas populações, sem duvida, teremos de registrar horrores da crise que as assola. Os principais se não únicos meios de vida ao povo são a cera de carnaúba e as vazantes do leito do rio.

O carnaubal, porém, com as repetidas secas estão morrendo e o que sobrevive, não dá quase pó algum para o fabrico. Nas varzantes tem aparecido uma moléstia que há crestado as plantas falhando toda a esperança dos que nela viam um exíguo e futuro recurso a manutenção de seus filhos.

Não há um poço no rio; as áreas ressequidas e altas sempre a tremerem a visão pela intensidade do calor e ardência do sol parecem uma fornalha a testar a inclemência dos céus.

Há pouco apareceu ali o beribéri que fez muitas vitimas; a imprensa noticiou este aparecimento e nem uma medida foi tomada pelo governo impatriótico e inconsciente que infelizmente temos.

Dali ele só exige contribuição e o sacrifício asfixiante do povo que nele ver tão somente um algoz frio e capaz de miná-lo até o completo aniquilamento.

Agora mesmo, esta ali em apuros o grupo Nunes contra o qual se esmerilham as contas da Coletoria Estadual. Foi suspenso o respectivo escrivão Antônio Varella da Costa Lima e talvez que seja também o Coletor Francisco Nunes Guerreiro.

Há não muito tempo saiu daqui uma força de 12 praças e um oficial a mando dos Srs. Pedro Borges e José Accioly, a qual chegando a Limoeiro há horas mortas da noite cercaram a casa da câmara e açoitaram a sabre o delegado Antônio Nunes, Joaquim Mendes Guerreiro, Francisco Remígio e outros que ali se achavam. O primeiro sobrinho, o segundo cunhado e o terceiro compadre e íntimo do chefe Acciolyno José Nunes Guerreiro. Este quase morreu de medo e teve que andar de gatinhas pedindo ao oficial benevolência em dar liberdade a todos que ficaram debaixo de ordens, na casa da intendência até pela manhã.

Nota-se que a cidade que até àquela hora dormia calma e silenciosa, não ouviu só o tinir dos sabres que se cruzaram no costado dos amigos e parentes do Sr. José Nunes; assistiu ao tiroteio ligeiro e violento que sobressaltou bruscamente a toda a população.

Faz pouco mais de um ano que o Sr. Pedro Borges assim procedeu contra o grupo Nunes de seu partido e esse grupo ainda terá coragem de sufragar hoje seu nome ao lugar de senador? É crível que os Nunes, submissos vão às urnas votarem no Sr. Pedro Borges. Não tem mais noção alguma de caráter e pudor. Ao sr. Accioly cabe porém a honra de tamanha degeneração e amesquinhamento das faculdades de pensar e agir não só deste grupo como de quase de todos de que é chefe. 

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