Jornal O Cearense, 26 de fevereiro de 1871
Injustiça Clamorosa
“Não posso deixar de
levar ao conhecimento do público a questão da transferência da Matriz de São
João do Jaguaribe para Limoeiro, mostrando quantas injustiças se praticaram, somente
para satisfazer conveniências políticas e mesquinhas vinganças do vigário
encomendado daquela freguesia, Francisco Ribeiro Bessa”.
Depois deste ato, S.
Ex.ª conservou o vigário administrando os sacramentos na igreja do Limoeiro que
pertencia a matriz das Russas. Sendo por vezes reclamado pelos povos a S. Ex.ª
para mandar o vigário exercer as funções na sede da Matriz, este respondia
(como consta de documentos) que a matriz era ali e que logo que aprontassem a
igreja, mandaria o vigário. Ora, o povo acreditando nas palavras escritas de
seu prelado, quando por mais de uma vez – “a matriz é aí” – cotizaram-se a fim
de preparar a igreja gastando a quantia de um conto e tantos mil réis. Fora o
sacrário, a lâmpada e ambula que hoje existem como paramentos essenciais, além
dos mais que já existiam na mesma igreja, como consta no inventário a que por
ordem do diocesano se procedeu nas alfaias da mesma igreja. Achando-se preparada
como se acha a Matriz de São João, foi por ordem superior mandada para ali o
vigário Bessa, que aceitou essa ocupação só com o fim de desviar o pensamento
de engrandecimento do lugar, despersuadindo o povo de fazer casas dizendo que
pretendia logo que o seu partido empolgasse, poder tirar a Matriz para
Limoeiro. A vista disto quem faria casa em São João?
Só quem tinha plena
confiança no prelado diocesano, só quem tinha presentes as palavras escritas de
S. Ex.ª faria como fizeram os que lá mandaram edificar 11 prédios. Certamente
haveria hoje o dobro, se a voz do padre ali residente, em vez de dissuadir,
animasse a edificação.
Nada teria de narrar se
a questão versasse sobre a assembleia provincial e o administrador da
província, por que tanto aquela corporação que legislou como o presidente que
sancionou o projeto, só tinha o pensamento de satisfazer exigência de um
partidário que tudo sacrifica, contanto que sejam saciados seus desejos de
vingança. Mas o que dói intimamente, o que faz o principal objeto deste artigo,
é ver o pastor geral desta diocese prestar sua anuência a um jogo puramente
político e que tanto afeta os interesses da igreja e do povo do São João do
Jaguaribe, que faz parte do rebanho que lhe foi confiado.
Quem melhor do que S. Ex.ª
está a par das necessidades que tem o pobre povo da freguesia de São João do
Jaguaribe de ter um sacerdote que lhe administre o pasto espiritual, e que não
sendo paga pelo estado, deixara de existir, visto como suas forças não
comportam o preço elevado que exige um sacerdote para ser capelão?
S. Exª conhecendo essas
circunstâncias desde que por ali passou, protegeu como pai espiritual do povo
de São João, fazendo que fosse para ali a sede da Matriz. Hoje esquece tudo
quanto fez em prol daqueles diocesanos, amortecendo assim a fé e confiança que
todos lhe tributavam. Tanto assim que, quando se afirmava que o vigário tirava
a sede da matriz, todos cheios de confiança diziam: “hei de ver para crer”.
Infelizmente todos viram
possuídos do maior desprazer.
O vigário Francisco
Ribeiro Bessa subiu a tribuna evangélica e ali exerceu o papel da mais
requintada hipocrisia ao despedir-se do povo a quem acabava de privar de um
benefício a que tinha jus, fingindo cara de choro e dizendo que era obrigado a
deixar aquela igreja e ir para Limoeiro. Todos lamentaram a indiferença do seu
prelado, que não demonstrou mais sua benevolência, restando-lhes somente a
esperança de um melhor futuro.
Queira Sr. Redator dar publicidade a estas linhas pelo que muito grato lhe será.
Ceará de fevereiro de 1871
Antônio Manoel Ferreira Maia










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