Jornal O Cearense, 26 de fevereiro de 1871

Injustiça Clamorosa

“Não posso deixar de levar ao conhecimento do público a questão da transferência da Matriz de São João do Jaguaribe para Limoeiro, mostrando quantas injustiças se praticaram, somente para satisfazer conveniências políticas e mesquinhas vinganças do vigário encomendado daquela freguesia, Francisco Ribeiro Bessa”.

Quando foi transferida a sede da matriz do Limoeiro para São João, havia quem desejasse e trabalhasse com todas as forças para que a transferência fosse para o Taboleiro d’Areia (atual Tabuleiro do Norte). Até passou em primeira discursão na Assembleia Provincial de 1864, mas consultado o prelado diocesano, este repeliu a ideia dizendo que só dava o beneplácito se fosse à transferência para a igreja do São João Jaguaribe (foto), dando como razão fundamental ficar no centro da população, a dez léguas da matriz das Russas e ser situada em lugar que torna inacessível às grandes inundações do Jaguaribe. E assim por uma emenda ao projeto da transferência para São João.

Depois deste ato, S. Ex.ª conservou o vigário administrando os sacramentos na igreja do Limoeiro que pertencia a matriz das Russas. Sendo por vezes reclamado pelos povos a S. Ex.ª para mandar o vigário exercer as funções na sede da Matriz, este respondia (como consta de documentos) que a matriz era ali e que logo que aprontassem a igreja, mandaria o vigário. Ora, o povo acreditando nas palavras escritas de seu prelado, quando por mais de uma vez – “a matriz é aí” – cotizaram-se a fim de preparar a igreja gastando a quantia de um conto e tantos mil réis. Fora o sacrário, a lâmpada e ambula que hoje existem como paramentos essenciais, além dos mais que já existiam na mesma igreja, como consta no inventário a que por ordem do diocesano se procedeu nas alfaias da mesma igreja. Achando-se preparada como se acha a Matriz de São João, foi por ordem superior mandada para ali o vigário Bessa, que aceitou essa ocupação só com o fim de desviar o pensamento de engrandecimento do lugar, despersuadindo o povo de fazer casas dizendo que pretendia logo que o seu partido empolgasse, poder tirar a Matriz para Limoeiro. A vista disto quem faria casa em São João?

Só quem tinha plena confiança no prelado diocesano, só quem tinha presentes as palavras escritas de S. Ex.ª faria como fizeram os que lá mandaram edificar 11 prédios. Certamente haveria hoje o dobro, se a voz do padre ali residente, em vez de dissuadir, animasse a edificação.

Nada teria de narrar se a questão versasse sobre a assembleia provincial e o administrador da província, por que tanto aquela corporação que legislou como o presidente que sancionou o projeto, só tinha o pensamento de satisfazer exigência de um partidário que tudo sacrifica, contanto que sejam saciados seus desejos de vingança. Mas o que dói intimamente, o que faz o principal objeto deste artigo, é ver o pastor geral desta diocese prestar sua anuência a um jogo puramente político e que tanto afeta os interesses da igreja e do povo do São João do Jaguaribe, que faz parte do rebanho que lhe foi confiado.

Quem melhor do que S. Ex.ª está a par das necessidades que tem o pobre povo da freguesia de São João do Jaguaribe de ter um sacerdote que lhe administre o pasto espiritual, e que não sendo paga pelo estado, deixara de existir, visto como suas forças não comportam o preço elevado que exige um sacerdote para ser capelão?

S. Exª conhecendo essas circunstâncias desde que por ali passou, protegeu como pai espiritual do povo de São João, fazendo que fosse para ali a sede da Matriz. Hoje esquece tudo quanto fez em prol daqueles diocesanos, amortecendo assim a fé e confiança que todos lhe tributavam. Tanto assim que, quando se afirmava que o vigário tirava a sede da matriz, todos cheios de confiança diziam: “hei de ver para crer”.

Infelizmente todos viram possuídos do maior desprazer.

O vigário Francisco Ribeiro Bessa subiu a tribuna evangélica e ali exerceu o papel da mais requintada hipocrisia ao despedir-se do povo a quem acabava de privar de um benefício a que tinha jus, fingindo cara de choro e dizendo que era obrigado a deixar aquela igreja e ir para Limoeiro. Todos lamentaram a indiferença do seu prelado, que não demonstrou mais sua benevolência, restando-lhes somente a esperança de um melhor futuro.

Queira Sr. Redator dar publicidade a estas linhas pelo que muito grato lhe será.

                              Ceará de fevereiro de 1871

                         Antônio Manoel Ferreira Maia


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