Jornal Cearense, 3 de dezembro de 1879

                               LIMOEIRO, 10 DE SETEMBRO DE 1879

Estava eu aqui bem caladinho, sem me importar com a vida alheia e muito menos com o que vai pela justiça ou injustiça deste torrão e por esse mundo politico.

Vendo, porém, o tiroteio forte do nosso Dr. juiz municipal Manoel Joaquim, que para aqui veio assistir suas baterias, para fazer fogo em todos e em tudo da malfadada Russas, entendi que com minha espingarda velha, devia dar também meu tirosinho e de longe, por ser minha arma lazarina, de grande alcance, e não ficar com ela enferrujada e carregada.

São desejos talvez maus quem sabe, posso com um só tiro chumbar a muita gente boa, a questão é carregá-la com chumbo mustardo e dar uma mocica ou rabiadela no cano quando dispará-la.

Eis-me, pois, no prelo, para gozar das honras de escritor, eu pobre sertanejo, embora dê facadas na gramática e na ortografia, darei sempre o meu recado, não me importa que o recebam na porta da rua.

Temos apreciado muito nas palestras os artigos do Dr. Enéas, que pulveriza os do Dr. Cabrinha – é só no que se fala. Quero bem a esse moço sem o conhecer, está prestando um relevantíssimo serviço ao seu contendor, que boa lição assim aproveite, creio que não, porque cavalo velho não aprende andres.

Será ou não será do promotor?

É ou não é de sua pena?

São interrogações constantes.

Por mim não duvida, o que é de fato e de direito, é que o nosso Doutor juiz Municipal, passeia como D. Garcia da sala para a cozinha.

Caspite. Este homem é das arábias.

Anda agora triste e com semblante feroz, apertando os punhos, felizmente neste estado, ainda nenhuma mulher grávida ou de esperanças o viu, porque abortaria sem coisa que a vida faça.

O nosso escrivão Serafim, veio com o credo na boca e sua excelentíssima Senhora, em rezar tanto a Magnificat, está sofrendo seriamente do estomago, tudo é tristeza na casa, porque o medo é grande da cabrinha!

Assim deve ser, porque quem ver as barbas do vizinho arder ponha as suas de molho. Ora, não é para menos, quem viu e quem tem ouvido dizer no que fez nas Russas, tal homem, e vir refugiar-se aqui, faz de certo nervoso e arrepiar os cabelos.

Não tarda muito que por aqui não haja o diabo a quatro, parece-me que já vejo de baca. Dizem que o demo tem pés de cabra, e fico as vezes com o juízo a arder-me pela razão de chamar meu Doutor juiz municipal de Cabrinha. Será por que faz coisas do diabo ou com ele se assemelhe?

Em pensar e conjecturar no que haverá, temos aqui muita gente que só falta perder a cachola.

O Alarcon e Guerreiro só olham de revés e por cima dos tradicionais e clássicos óculos para o nosso Dr., que deslambidamente e com riso amarelo, agrada e faz tais mesuras ao João Vidal, que este, esquecendo por momentos o que ele fez ao pai (o bom velho amigo João Anselmo que Deus haja) retribui-lhe amabilidades e o acha até encantador!

O Candú. Saltitando no cavalicóte, fica carrancudo e ardendo por dentro, quando é pescado por ordem do juiz, para depor como testemunha em processos, sobre fatos que nunca ouviu falar.

Assim, é preciso para remendar autos, já o juiz passa dias inteiro, a remendar sua honra em artigos para o jornal Pedro II.

Quem vencerá o Dr. juiz Municipal ou o Dr. juiz de direito?

Aquele já deu boas bicaradas neste, que não ficará calado, aposto pelo magno e alto, deixo o percurruxo e baixote para quem quiser.

O amigo João de Hollanda, que gosta tanto de brigas de galo e de apostar, seria bom que comigo apostasse nessa briga, desse dois galos jurídicos e Drs., são de nossa espécie.

O Dr. juiz municipal, já passa por galo doido e valentão e o de direito, não é fraco, é um pouco estapafúrdio (deixe passar a frase que é cá do sertão).

Boas coisas não aparecerá, vou ser todo ouvidos.

Ambos são vermelhos, grandes, fidalgos e brancos, lá se avenham.

Sei que quando a justiça briga, corre perigo a nossa liberdade, honra e vida.

Libertas, decus et anima mostra indubio sunt.

Sei também o meu latim, já fui coroinha e tonsurado, por um triz que não estou hoje também de beca ou batina, tudo é o mesmo, o nome é que difere, conforme a condição da pessoa que a veste.

Este latisinho é do tempo que estudei gramatica no “Pereira”. Fiz mal em falar do “Pereira”, este nome encaipora o Dr. juiz municipal, paciência, sei que mais hoje ou amanhã estamos pegados com dois tamanduás.

Já que falei em Tamanduá, temos aqui um no foro, que é esplendido – o inventário do padre Ambrósio.

Tem dado panos para as mangas, cumpridas, largas, estreitas, com pregas, com frisos, pafões, pafos, mangotes, manguinhos e manguitos!!

Que mina. Já acho o Dr. juiz municipal mais goldinho!!

Se padre ganha dinheiro como goteira, sempre pinga cobres, é logico que, quando morre deixa bolo para o .......próximo quando não tem herdeiros forçados ascendentes, porque descendentes não tem, visto não poderem casar, embora se casem alguns a Espequingles; isto é, a Ingleza – Iésse.

Fiz mal não me ordenar, a coisa não é má, ainda estou em tempo é verdade, mas, gosto muito de nenenzinhos de cueiros.

Deo gatia. Vou cuidar em meus negócios.

Res meus agitur.                                              Z. Y.

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