Jornal Cearense, 20 de maio de 1875
A INUNDAÇÃO DO LIMOEIRO
De uma carta particular datada de 25
do passado extraímos os seguintes pormenores sobre a última calamidade que
arrastou aquele importante distrito da comarca de Russas:
- Nunca se viu por aqui cheia igual.
- Nem a tradição de que nas eras
remotas, as águas subissem a tão extraordinária altura.
- A casa que foi do finado coronel
Bento Joaquim de Souza, pai do Joaquim Bento, a margem do rio Banabuiú, aonde o
ano de 1832 a água chegou apenas a altura de 2 palmos e nas seguintes enchentes
39, 42, 66 e 72, foi invadida do mesmo modo pouco mais ou menos, este ano
esteve de nado e com parte do telhado coberto!
- Imagine, pois quais foram às
proporções deste espantoso dilúvio!
- A população deste distrito ainda se
recorda com saudades daquele honrado e benemérito cidadão, que em ocasiões
semelhantes metia-se em uma canoa cheia de viveres e andava às vezes oito dias
consecutivos desilhando para os lugares altos a gente pobre, cujas habitações
estavam invadidas ou ameaçadas e dando-lhes alimentos.
- Por isso e por muitos outros atos
de abnegação e caridade que praticava ainda hoje a sua memoria é uma das mais
veneradas desta terra.
- Este ano mais de que nunca o povo
do Banabuiú tem repetido o seu nome com saudade e reconhecimento.
- A propósito vou referir-lhe um fato
que assinala quem foi Bento Joaquim:
- Possuía ele grandes rebanhos de
ovelhas, que por estas vargens reproduziam-se maravilhosamente. Uma bela tarde
de verão chegou-lhe ao pátio da casa uma ovelha com um relho no pescoço. –
mandou desatá-la e guardou o relho.
- Dai a pouco apareceu um dos
moradores vizinhos pedindo-lhe a esmola de um carneirinho para alimentar a
mulher que tinha dado a luz ou estava doente. Apresentando o relho ao tal
sujeito perguntou-lhe Bento Joaquim se sabia de quem era. O sujeito empalideceu
e titubeou, confessando a final que fora ele quem tinha pegado a ovelha e que
esta escapulira-lhe das unhas.
- Então mandou Bento Joaquim pegar
outra ovelha, fez presente dela ao ladrão e disse:
- Quando você estiver com fome venha
a minha casa que eu lhe darei alguma coisa, mas, não pegue as minhas ovelhas no
mato.
E mandou-o em paz!
- E como este ainda se referem muitos
outros atos do mesmo finado, que o fazem sempre lembrado dos pobres e da
família cujo chefe era.
- Desculpe a digressão e voltemos ao
assunto desta carta.
- No Limoeiro caíram umas 20 casas e
muitas estão arruinadas, sendo deste número uma de quem esta escreve.
- Morreu muita criação de ovelhas e
cabras, gados vacum e cavalar que eram tomados de surpresa e arrebatados pelas
correntes impetuosas das águas. Calculando que o prejuízo do distrito, aliás,
pobre, deve exceder de 30:000$000 reis!
- Os cercados foram quase todos com
belíssimas plantações de algodão e outras, vindo à força d’água especialmente
do Banabuiú; de modo que se o Jaguaribe não está baixo então, não sei onde iria
parar o povo que mora além da junção dos 2 rios.
- Parece que o ano de 75 de que a
principio tanto temiam, lembrados das secas de 25 e 45 quis desmentir esses
temores com excesso d’água que faltou naqueles tempos calamitosos, tornando-se
assim tão fatal como os seus camaradas da sinistra era de 5, a datar da 1ª
grande seca conhecida de 1795, que despovoou sete freguesias na província, como
dizem os cronistas.
- Será bom que o Cearense peça ao
governo prontos socorros para salvar da mais completa miséria este povo que
tudo perdeu e esta morrendo a fome.
Joaquim Bento










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