Jornal Cearense, 15 de novembro de 1876
Limoeiro, 29 de setembro de 1876
A coisa a que deram o nome
nesta vila de qualificação de votantes – é o fato mais demonstrativo da
corrupção que lavra na atualidade como o vulcão, que em sua voracidade tudo envolve
tudo fere, tudo mata!
A prova desta triste
verdade, ai vai descrita sem mais preâmbulos, sem mais floreios.
O livro das atas da junta
paroquial da qualificação está falsificado em 4 folhas, que arrancaram, para
simular sete atas que fingissem – não ter a junta ultrapassado o prazo da lei.
Estas atas tem as datas 9, 10, 25, 26, 27, 28 e 29 de junho, quanto as que
foram substituídas, eram 6 de junho e a sétima de 10 de agosto, dia em que a
junta fez afixar a lista geral no interior da Matriz e enviou os livros ao
substituto do juiz de direito como presidente que deveria ser da junta
municipal. As 4 folhas que foram subpostas as verdadeiras que arrancaram, não
tem numeração, nem a rubrica do presidente da câmara e nem a assinatura de
nenhum membro da junta; de sorte, que sendo a numeração do livro feito a tipo, estão sem ela as folhas 15, 16, 17
e 18. Fizeram como nambu – cobriram a
cabeça e descobriram-o!!
A junta municipal igualmente
simulou trabalhos que nunca fez, e ninguém dá deles noticias; porque, nem foram
eleitos pela câmara os dois membros, como preceituam os Arts. 49 e seguintes
das instruções regulamentares de 12 de janeiro deste ano, nem houve quem visse
ela reunida ou funcionar em dia algum; do que resultou ficarem sem recursos
centenários de cidadãos, que esperavam que ela se reunisse para reclamar o seu
direito sobre inclusões e exclusões indevidas e sobre a renda que
a junta paroquial arbitrou a seu bel-prazer, qualificando a muitos com 200$,
que tem a renda liquida de 400$ 500$ 600$ e mais mil reis e outros que são
verdadeiros mendigos e proletários, mas, do seio do Abraão, com 500$ 600$ 800$
1:000$ reis e mais de rendas! Ainda agora estão estes cidadãos esperando pela
vinda d’el-rei D. Sebastião!!
E para tornar-se mais
escandalosa a força que representou a junta municipal (cuja entidade nunca existiu),
o secretário da câmara subscreveu os seus atos praticados nas trevas, andando
nessa época no Riacho do sangue em cobranças, em que se demorou mais de um
mês!! É que o segredo ou mistério dos trabalhos da junta municipal deveriam ser
reformados por outro mistério, dum ausente subscreve-los!
Tudo quanto levamos dito é a
simples e pura verdade do que se deu no corrupto e nefasto processo a que deram
o pseudônimo de qualificação de votantes – na paroquia de Nossa Senhora da
Conceição do Limoeiro!! Mas, se for preciso dar testemunha para prova desta
verdade, ai estão os habitantes da vila, que quase em sua maioria presenciaram
esses escanda-los que nos referimos e deles se horrorizaram; aí está
testemunhado, com 8 pessoas de reconhecida probidade e credito, o fato da
falsificação do livro das atas; que o observaram recuando de surpresa a vista
desse ato de puro vandalismo!!
Agora cabe nos perguntar:
que é da moralidade pública, da consciência e da dignidade, que deve existir
nos atos políticos para que se tornem eles legais, honestos, respeitados e
atendidos? Ora esta! A resposta é obvia. Tudo isso está afogado no mar da
corrupção, que se acastelou no espirito do mais insignificante espoleta ou
cafajeste, até ao mais alto e gordo potentado, que se arvora de chefe de
partido nesta desgraçada atualidade.
Fiquemos aqui, com protesto
de continuar-se.
G.










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